Revisão comentada · Dr. Guilherme Moura · Baseada na diretriz oficial AHA/ACC 2026
Cardiologia · Avaliação pré-operatória · AHA/ACC 2026
Diretriz AHA/ACC 2026: manejo cardiovascular perioperatório em cirurgias não cardíacas
Revisão prática e interativa para aplicação clínica. Algoritmo em etapas, recomendações com classe (COR) e nível de evidência (LOE), perguntas-chave ao longo do texto e 165 questões comentadas.
“2026 AHA/ACC/ACS/ASNC/HRS/SCA/SCCT/SCMR/SVM Guideline for Perioperative Cardiovascular Management for Noncardiac Surgery” (Thompson A et al., J Am Coll Cardiol / Circulation, 2026).
A diretriz de 2026 substitui formalmente a publicação de 2024. O Comitê de Vigilância (Surveillance Committee) avaliou as evidências publicadas até março de 2026 e concluiu que a diretriz de 2024 permanece válida e atual: nenhuma nova evidência foi identificada capaz de modificar as recomendações existentes.
Consequência prática: recomendações, textos de suporte, figuras, tabelas e referências são idênticos aos da publicação de 2024. O documento foi revisado pelo Comitê de Vigilância em fevereiro de 2026 e reafirmado pelo Joint Committee on Clinical Practice Guidelines em março de 2026. Quem estudou a versão 2024 não precisa “reaprender” condutas — mas deve citar a versão 2026 como a vigente.
Material educacional baseado na diretriz oficial. Não substitui julgamento clínico individualizado. Doses e contraindicações devem ser conferidas na bula/prescrição local; a diretriz se refere a fármacos e dispositivos aprovados nos EUA.
Classe de recomendação (cores clínicas):
Nível de evidência (cores do site, sem relação com a classe):
A diretriz norte-americana numera as classes em algarismos arábicos (1, 2a, 2b, 3), equivalentes às classes I, IIa, IIb e III usadas pela SBC.
Três camadas estão sempre separadas: Recomendação formal (com classe e nível de evidência, tradução fiel) · 📖 Texto de suporte (dados e raciocínio do próprio documento) · 🎓 Interpretação didática (leitura prática do autor desta revisão).

Imagem traduzida da diretriz original. A classe e o nível de evidência são determinados de forma independente: qualquer classe pode ser combinada com qualquer nível. Uma recomendação com nível de evidência C não significa que a recomendação seja fraca.
📚 Siglas usadas nesta revisãoAbrir lista de siglasVer
aGLP-1, agonista do receptor de GLP-1 · AVK, antagonista da vitamina K · angio-TC, angiotomografia de coronárias (CCTA) · CF, capacidade funcional · CNC, cirurgia não cardíaca · cTn, troponina cardíaca · CV, cardiovascular · CRM, cirurgia de revascularização miocárdica · DASI, Duke Activity Status Index · DCC, doença coronariana crônica · DCEI, dispositivo cardíaco eletrônico implantável (marca-passo, CDI) · DCV, doença cardiovascular · DES, stent farmacológico · BMS, stent convencional · DOAC, anticoagulante oral direto · EAo, estenose aórtica · ETE/ETT, ecocardiograma transesofágico/transtorácico · FoCUS, ultrassonografia cardíaca focada · HAP, hipertensão arterial pulmonar · HP, hipertensão pulmonar · ICP, intervenção coronária percutânea · IEM, interferência eletromagnética · INRA, inibidor da neprilisina e do receptor da angiotensina · iSGLT2, inibidor do SGLT2 · iSRAA, inibidor do sistema renina-angiotensina-aldosterona · MACE, eventos cardiovasculares adversos maiores · MINS, lesão miocárdica após cirurgia não cardíaca (myocardial injury after noncardiac surgery) · RCRI, Revised Cardiac Risk Index · TMO, terapia medicamentosa otimizada conforme as diretrizes (GDMT) · TCE, tronco da coronária esquerda.
🔥 O que você precisa lembrar desta diretriz
As 9 “Top Take-Home Messages” oficiais, reorganizadas em FAZER · NÃO FAZER · CONSIDERAR.
Abordagem escalonada (stepwise)
Seguir um fluxo em etapas ajuda a decidir quando a cirurgia deve prosseguir e quando uma pausa para avaliação adicional se justifica.
Mesmas indicações de fora da cirurgia
Rastreamento e tratamento CV seguem as mesmas indicações dos pacientes não cirúrgicos, no momento adequado, sem atrasar a cirurgia e sem “overscreening/overtreatment”.
Exames que não mudam conduta
Só peça exame pré-operatório se o resultado puder modificar a conduta. ECG, eco, estresse, angio-TC e cateterismo de rotina têm recomendações classe 3 em baixo risco/estáveis.
Teste de isquemia de rotina
Teste de estresse deve ser criterioso, sobretudo no baixo risco, e apenas quando seria apropriado independentemente da cirurgia.
Cuidado em equipe
Anatomia complexa ou doença CV instável → equipe multidisciplinar (cardiologia, anestesia, cirurgia, paciente).
Suspender iSGLT2 3–4 dias antes
Canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina ≥3 dias; ertugliflozina ≥4 dias — para reduzir cetoacidose/acidose metabólica perioperatória.
Não ignorar MINS
Lesão miocárdica após cirurgia não cardíaca é entidade real, geralmente assintomática, com mortalidade relevante.
FA nova no perioperatório
Risco aumentado de AVC: tratar gatilhos, avaliar controle de ritmo e anticoagulação e seguir ambulatorialmente.
Terapia de ponte de rotina
Ponte com heparina não é recomendada na maioria (classe 3: dano); reservar a pacientes de maior risco trombótico em uso de AVK.
FoCUS na instabilidade inexplicada
Com profissional capacitado disponível, é razoável usar FoCUS (ou ETE) de emergência para esclarecer a causa.
FoCUS no lugar do eco completo
FoCUS não substitui o ecocardiograma transtorácico abrangente.
Biomarcadores e troponina pós-op
BNP/NT-proBNP (2a) e troponina (2b) pré-op em selecionados; troponina 24 e 48 h pós-op em alto risco (2b).
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — “Top Take-Home Messages”.
1Como pensar o perioperatório
A avaliação pré-operatória não é “liberação cardiológica”: é estimativa de risco, identificação do que é modificável e comunicação clara para decisão compartilhada.
- Adultos (≥18 anos) considerados para cirurgia não cardíaca (CNC), da avaliação pré-operatória ao pós-operatório.
- Foco principal (não exclusivo) em pacientes encaminhados para CNC de risco elevado. Há pouca evidência para testes extensos antes de cirurgias de baixo risco, e o cuidado raramente melhora com testes CV adicionais.
- Isso é particularmente verdadeiro para procedimentos de muito baixo risco: catarata e outras cirurgias oftalmológicas, procedimentos dentários, endoscópicos e biópsias de pele.
- Procedimentos de baixo risco que exigem anestesia geral podem merecer consideração adicional pelos efeitos hemodinâmicos da anestesia.
- A avaliação começa com anamnese e exame físico focados e revisão cuidadosa do histórico. Mudanças possíveis: terapia medicamentosa, estilo de vida, tratamento intervencionista, monitorização, técnica cirúrgica, local da cirurgia (ambulatorial vs internação) e destino pós-operatório. Às vezes a melhor decisão é uma estratégia não invasiva ou paliativa.
- A diretriz de 2024/2026 substitui a diretriz ACC/AHA de 2014.
- Em adultos ≥45 anos internados para cirurgia, morte, IAM ou AVC isquêmico perioperatório ocorreu em 1 a cada 33 internações cirúrgicas.
- Maior incidência de eventos CV: cirurgias vasculares, torácicas e transplante de órgão sólido.
- Modelos multidisciplinares (“pathways”) organizam as fases pré, intra e pós-hospitalar; há poucos dados mostrando redução específica de complicações CV, mas são a estrutura para melhorias de qualidade.
- Qualidade de vida e decisão compartilhada: conversar sobre objetivos e prioridades do paciente orienta o planejamento, especialmente em alto risco. Não há evidência suficiente para recomendações formais sobre QV.
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As siglas das organizações seguem o original: AACVPR, American Association of Cardiovascular and Pulmonary Rehabilitation; AAPA, American Academy of Physician Associates; ABC, Association of Black Cardiologists; ACC, American College of Cardiology; ACCP, American College of Clinical Pharmacy; ACP, American College of Chest Physicians; ACPM, American College of Preventive Medicine; ADA, American Diabetes Association; AGS, American Geriatrics Society; AHA, American Heart Association; APhA, American Pharmacists Association; ASA, American Society of Anesthesiologists; ASE, American Society of Echocardiography; ASH, American Society of Hypertension; ASPC, American Society for Preventive Cardiology; CHEST, American College of Chest Physicians; DAPT, dupla antiagregação plaquetária; HFSA, Heart Failure Society of America; HRS, Heart Rhythm Society; NLA, National Lipid Association; NMA, National Medical Association; PCNA, Preventive Cardiovascular Nurses Association; SAEM, Society for Academic Emergency Medicine; SCAI, Society for Coronary Angiography and Interventions; SCCT, Society of Cardiovascular Computed Tomography; SCMR, Society for Cardiovascular Magnetic Resonance; STS, Society of Thoracic Surgery.
- Dá tempo? (momento da cirurgia)
- Há algo instável que precise ser tratado antes, independentemente da cirurgia?
- Qual o risco combinado paciente + cirurgia e qual a reserva funcional?
- Algum exame ou intervenção vai mudar a conduta? Se não, prossiga e otimize o manejo perioperatório.
A pergunta correta não é “o paciente está liberado?”, e sim “qual o risco estimado, o que posso otimizar e qual o plano de monitorização?”. Isso é o que o cirurgião, o anestesiologista e o paciente precisam.
❓ Pergunta-chavePaciente assintomático, sem doença CV, que fará catarata precisa de avaliação cardiológica com exames?Ver resposta
Resposta: em geral, não.
A diretriz cita catarata, procedimentos dentários, endoscópicos e biópsias de pele como procedimentos de muito baixo risco, em que testes adicionais raramente melhoram o cuidado. ECG de rotina em assintomático para cirurgia de baixo risco é Classe 3: sem benefício B-NR.
💡 Anamnese e exame físico focados bastam; exame só se houver sintoma ou achado novo.
❓ Pergunta-chaveO tratamento cardiovascular de um paciente cirúrgico deve ter indicações próprias do contexto operatório?Ver resposta
Resposta: em geral, não. Pela mensagem-chave nº 2, rastreamento e tratamento CV devem seguir as mesmas indicações dos pacientes não cirúrgicos, no momento adequado para evitar atrasos e escolhas que evitem excesso de rastreamento e de tratamento.
💡 Pergunte: “eu faria isso se o paciente não fosse operar?”. Se a resposta for não, provavelmente não está indicado.
❓ Pergunta-chaveUma estratégia não cirúrgica ou paliativa pode ser o “melhor resultado” da avaliação?Ver resposta
Resposta: sim. O escopo da diretriz afirma que, às vezes, a melhor decisão de uma abordagem em equipe e centrada no paciente é seguir estratégias não invasivas ou paliativas. Em idosos com fragilidade avançada e baixa expectativa de vida, objetivos de cuidado devem integrar o planejamento.
💡 Documentar a conversa de decisão compartilhada é parte da avaliação.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 1.4, 2, 2.1, 2.2 e Top Take-Home Messages.
2Momento e risco da cirurgia
Duas definições estruturam todo o algoritmo: quanto tempo temos e qual o risco de MACE.
| Momento | Definição |
|---|---|
| Emergência | Ameaça imediata à vida ou ao membro sem intervenção cirúrgica, com tempo muito limitado ou nenhum tempo para avaliação clínica pré-operatória; tipicamente <2 h. |
| Urgente | Ameaça à vida ou ao membro sem intervenção cirúrgica, podendo haver tempo para avaliação clínica pré-operatória que permita intervenções capazes de reduzir o risco de MACE ou de outras complicações pós-operatórias; tipicamente ≥2 a <24 h. |
| Tempo-sensível (time-sensitive) | A cirurgia pode ser adiada por até 3 meses para permitir avaliação e manejo pré-operatórios, sem impacto negativo nos desfechos. |
| Eletiva | O procedimento cirúrgico pode ser adiado para permitir avaliação pré-operatória completa e manejo apropriado. |
| Categoria de risco* | Definição |
| Baixo risco | As características combinadas da cirurgia e do paciente predizem baixo risco de MACE, <1%.* |
| Risco elevado† | As características combinadas da cirurgia e do paciente predizem risco elevado de MACE, ≥1%.* |
*A definição de risco calculado elevado depende da calculadora utilizada. Tradicionalmente, RCRI >1 ou risco calculado de MACE >1% em qualquer calculadora de risco perioperatório é usado como limiar para identificar pacientes de risco elevado.
†Engloba pacientes de risco cirúrgico intermediário ou alto.
MACE indica evento cardiovascular adverso maior; RCRI, Revised Cardiac Risk Index.
Observação de fidelidade: a Tabela 2 define risco elevado como “≥1%”, enquanto o rodapé cita “>1%” como limiar tradicional das calculadoras. Ambos foram reproduzidos exatamente.
- Emergência: prosseguir; a avaliação serve para planejar monitorização e cuidados pós-operatórios.
- Urgente: apenas medidas rápidas de redução de risco.
- Tempo-sensível: há tempo para avaliação e otimização; é a categoria que permite considerar a CNC ≥3 meses após stent farmacológico (Classe 2b).
- Eletiva: avaliação completa; adiar quando houver benefício.
| Risco de MACCE | Cirurgias citadas |
|---|---|
| Maior | Vascular suprainguinal, torácica, transplante, neurocirurgia |
| Intermediário | Geral, otorrinolaringológica, geniturinária, ortopédica |
| Menor | Endócrina, mama, ginecologia, obstetrícia |
A via de acesso muda o risco (ex.: correção endovascular de aneurisma de aorta tem menor MACE que a aberta). Cirurgias de emergência têm, em geral, maior MACCE que eletivas. Comorbidades e a anestesia podem não ser totalmente capturadas considerando apenas o tipo de cirurgia.
Risco é sempre paciente + cirurgia. Uma cirurgia “intermediária” em paciente com IC e DRC pode ter risco elevado; uma cirurgia de mama em paciente jovem sem comorbidades é baixo risco. Por isso a diretriz prefere calculadoras validadas a listas de procedimentos.
❓ Pergunta-chaveQual a diferença operacional entre cirurgia urgente e tempo-sensível?Ver resposta
Resposta: urgente = ameaça à vida/membro, tipicamente ≥2 a <24 h, permitindo apenas intervenções rápidas. Tempo-sensível = pode esperar até 3 meses sem piorar desfechos, permitindo avaliação e manejo pré-operatórios.
💡 Após DES, “tempo-sensível” é o que permite considerar CNC ≥3 meses após a ICP (Classe 2b, B-NR).
❓ Pergunta-chaveQual risco estimado de MACE define “risco elevado”?Ver resposta
Resposta: risco de MACE ≥1% (Tabela 2); na prática, RCRI >1 ou risco calculado >1% em qualquer calculadora. Abaixo de 1% = baixo risco.
💡 O limiar depende da calculadora; nenhuma é superior às demais.
❓ Pergunta-chaveQuais tipos de cirurgia a diretriz associa ao maior risco de MACCE?Ver resposta
Resposta: vascular suprainguinal, torácica, transplante e neurocirurgia.
💡 A lista é apenas um guia: técnica (endovascular vs aberta) e urgência alteram o risco.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 1.5, Tabela 2.
3🧭 Abordagem em etapas da avaliação cardiovascular perioperatória
A diretriz propõe um fluxograma em etapas (Figura 1) para decidir quando a cirurgia pode prosseguir e quando uma pausa para avaliação adicional se justifica. A figura, traduzida para o português, aparece abaixo, seguida da leitura de cada caixa em texto.
A diretriz afirma que a Figura 1 é um arcabouço sugerido, que incorpora recomendações com diferentes níveis de evidência, não foi validado prospectivamente e não substitui o julgamento clínico nem o cuidado individualizado (seção 5.1).

*Fatores de risco cardiovascular: hipertensão, tabagismo, colesterol elevado, diabetes, mulheres com idade >65 anos, homens com idade >55 anos, obesidade, história familiar de DAC precoce.
†A definição de risco calculado elevado depende da calculadora utilizada. Tradicionalmente, RCRI >1 ou risco calculado de MACE >1% em qualquer calculadora de risco perioperatório é usado como limiar para identificar pacientes de risco elevado.
‡Condições que conferem risco adicional de MACE.
§Limiares de biomarcador anormal: troponina >percentil 99 do limite superior de referência do ensaio; BNP >92 ng/L; NT-proBNP ≥300 ng/L.
‖Teste de estresse não invasivo ou angio-TC sugestivos de lesão de tronco ou de DAC multiarterial.
As cores correspondem à classe de recomendação da Tabela 3.
📝 Leitura da Figura 1 em textoLer o fluxograma caixa por caixaAbrir
- Paciente com fatores de risco cardiovascular*, doença cardiovascular ou sintomas, agendado para CNC? Não → prosseguir para a cirurgia. Sim → seguir.
- Cirurgia de emergência? Sim → prosseguir para a cirurgia. Não → seguir.
- O paciente tem síndrome coronariana aguda, arritmia cardíaca instável ou insuficiência cardíaca descompensada? Sim → manejo da condição cardíaca aguda e discussão em equipe multidisciplinar sobre adiamento da cirurgia, tratamento não invasivo ou cuidados paliativos. Não → seguir.
- Estimativa do risco perioperatório: calculadora de risco de eventos cardiovasculares adversos 2a e pesquisa de modificadores de risco: valvopatia grave (seção 6.4); hipertensão pulmonar grave (6.3.2); cardiopatia congênita de risco elevado (6.3.3); stents coronarianos/CRM prévios (6.1.1 e 7.5); AVC recente (6.7); DCEI — marca-passo/CDI (6.6); fragilidade (3.3).
- Risco calculado baixo† e sem modificadores → prosseguir para a cirurgia.
- Risco calculado elevado† e sem modificadores → considerar ECG de 12 derivações em pacientes assintomáticos sem DCV estabelecida que serão submetidos a cirurgia de risco elevado 2b (seção 4.1); considerar iniciar TMO para redução do risco cardiovascular a longo prazo e manejo da doença, quando aplicável (seção 7).
- Modificador de risco presente, com qualquer risco calculado† → considerar consulta em equipe‡ sobre o momento da CNC e a investigação e o manejo perioperatórios; ECG de 12 derivações é razoável em pacientes com DCV estabelecida ou sintomas 2a (seção 4.1); ecocardiograma na suspeita de estenose/regurgitação valvar moderada ou grave, dispneia nova ou suspeita de disfunção ventricular nova ou agravada 1/2a (seções 4.2, 6.4.1 e 6.4.3); considerar iniciar TMO, quando aplicável (seção 7).
- Capacidade funcional baixa ou desconhecida (DASI ≤34, METs <4)? 2a Não → prosseguir para a cirurgia. Sim → seguir.
- Investigação adicional mudaria a tomada de decisão ou o cuidado perioperatório? Não → prosseguir para a cirurgia ou considerar estratégias alternativas: adiamento da cirurgia, tratamento não invasivo ou cuidados paliativos. Sim → seguir.
- Avaliação pré-operatória do risco com biomarcadores: BNP/NT-proBNP 2a; considerar troponina 2b. Biomarcadores normais → prosseguir para a cirurgia. Biomarcadores anormais§ → discussão em equipe multidisciplinar sobre riscos e benefícios de avaliação cardíaca adicional.
- Se a equipe optar pela avaliação cardíaca: considerar ecocardiograma; considerar teste de estresse não invasivo 2b; considerar angio-TC 2b. Achados de baixo risco → prosseguir para a cirurgia. Achados de risco elevado‖ → considerar estratégias alternativas: adiamento da cirurgia, tratamento não invasivo ou invasivo, cuidados paliativos, ou prosseguir para a cirurgia.
- Se a equipe optar por adiar a avaliação cardíaca adicional → considerar estratégias alternativas (como acima).
- Após a cirurgia: considerar vigilância pós-operatória com troponina 2b.
Em DCV conhecida, sintomas de DCV ou ≥65 anos com fatores de risco submetidos a CNC de risco elevado: troponina em 24 e 48 h pode ser razoável para identificar MINS 2b B-NR (seção 28).
Sequência da Figura 1: fatores de risco/DCV? → emergência? → SCA, arritmia instável ou IC descompensada? → risco calculado + modificadores de risco → capacidade funcional → a investigação mudaria a conduta? → biomarcadores → discussão em equipe → eco, estresse ou angio-TC em selecionados → troponina pós-operatória.
❓ Pergunta-chavePaciente de risco elevado, DASI 45, sem sintomas: preciso de algum teste de isquemia?Ver resposta
Resposta: não. Capacidade funcional adequada com sintomas estáveis → prosseguir. Estresse de rotina é 3: sem benefício B-R; poor functional capacity = <4 METs ou DASI ≤34.
💡 DASI >34 com sintomas estáveis encerra a investigação isquêmica na maioria dos casos.
❓ Pergunta-chaveQual é o limiar de NT-proBNP considerado anormal no algoritmo?Ver resposta
Resposta: NT-proBNP ≥300 ng/L (BNP >92 ng/L; troponina >p99 do LSR do ensaio), conforme rodapé da Figura 1.
O texto da seção 3.4 ressalva que os limiares ótimos de BNP/NT-proBNP não estão claramente estabelecidos.
💡 Use os limiares da Figura 1 como referência operacional, não como verdade universal.
❓ Pergunta-chaveEm que pontos a Figura 1 interrompe o fluxo para discussão em equipe?Ver resposta
Resposta: em três momentos: (1) diante de SCA, arritmia instável ou IC descompensada (manejo da condição aguda e discussão sobre adiamento, tratamento não invasivo ou paliação); (2) quando há modificador de risco (valvopatia grave, HP grave, cardiopatia congênita de risco elevado, stent/CRM prévios, AVC recente, DCEI, fragilidade), com consulta em equipe sobre momento da cirurgia e investigação; e (3) diante de biomarcadores anormais, com discussão sobre riscos e benefícios de avaliação cardíaca adicional.
💡 Antes dos biomarcadores, a figura pergunta se a investigação adicional mudaria a decisão — se não mudar, prosseguir ou considerar estratégias alternativas.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 5.1, Figura 1 (e rodapés); seções 3.1–4.6 e 6.1.1 para as recomendações citadas.
4Calculadoras de risco
Em pacientes com DCV conhecida considerados para CNC, uma ferramenta validada de predição de risco pode ser útil para estimar o risco de MACE perioperatório.
“Although many risk scores exist, data are lacking to support the use of one risk index over another.”
| Escore/calculadora | Critérios | Faixa do escore | Limiar de risco elevado | Desfecho | Derivação (n) | ROC — derivação | ROC — validação |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Índice de risco cardíaco de Goldman (1977) |
| Classe I: 0–5 pontos (menor risco) Classe II: 6–12 pontos Classe III: 13–25 pontos Classe IV: ≥26 pontos (maior risco) | Classe II ou superior (≥6 pontos) | IAM intra/pós-operatório, edema pulmonar, TV, morte cardíaca | 1001 | 0,61 | 0,70 |
| RCRI (1999) |
| Classe I: RCRI 0 (menor risco) Classe II: RCRI 1 Classe III: RCRI 2 Classe IV: RCRI ≥3 (maior risco) | RCRI >1 | IAM, edema pulmonar, fibrilação ventricular, BAV total, morte cardíaca | 1422 | 0,76 | 0,81 0,75† |
| Calculadora de risco NSQIP de Gupta para IAM e parada cardíaca perioperatórios (MICA) (2011) |
| 0%–100% (0% menor risco, 100% maior risco) | >1% | IAM ou parada cardíaca intra/pós-operatória em 30 dias | 211.410 | 0,88 | 0,87* |
| Calculadora de risco cirúrgico ACS NSQIP (American College of Surgeons) (2023) |
| 0%–100% (0% menor risco, 100% maior risco) | >1% | Parada cardíaca, IAM, mortalidade por todas as causas em 30 dias | 1.414.006 | 0,90 (parada cardíaca ou IAM) 0,94 (mortalidade) | 0,88 (parada cardíaca ou IAM)* 0,94 (mortalidade)* |
| Surgical Outcome Risk Tool (SORT) (2014) |
| 0%–100% (0% menor risco, 100% maior risco) | — | Mortalidade em 30 dias | 19.097 | — | 0,91‡ |
| Índice de risco cardíaco perioperatório sensível à população geriátrica NSQIP (2017) |
| 0%–100% (0% menor risco, 100% maior risco) | >1% | Parada cardíaca, IAM, mortalidade por todas as causas em 30 dias | 584.931 | N/A | 0,83* (0,76 em adultos com ≥65 anos) |
| Índice de risco cardiovascular AUB-HAS2 (2019) |
| Escore CVRI 0 (menor risco) Escore CVRI 1 Escore CVRI 2 Escore CVRI 3 Escore CVRI >3 (maior risco) | Escore CVRI ≥2 | Morte, IAM ou AVC em 30 dias | 3284 | 0,90 | 0,82* |
Na diretriz, as calculadoras estão dispostas em colunas; aqui, linhas e colunas foram transpostas para permitir a leitura em telas pequenas, sem alteração do conteúdo. “—” indica célula vazia no original.
Adaptada com permissão de Smilowitz et al.
*Validado utilizando a base de dados do NSQIP.
†Estudos de validação agrupados que avaliaram o desempenho do RCRI em cirurgias não cardíacas mistas.
‡Derivado e validado utilizando o estudo NCEPOD Knowing the Risk.
ASA indica American Society of Anesthesiologists; AUB, American University of Beirut; IMC, índice de massa corporal; DPOC, doença pulmonar obstrutiva crônica; CPT, current procedural terminology; CVRI, Coronary Vascular Resistance Index; ECG, eletrocardiograma; IC, insuficiência cardíaca; IAM, infarto agudo do miocárdio; MICA, IAM e parada cardíaca; NCEPOD, National Confidential Enquiry into Patient Outcome and Death; NSQIP, National Surgical Quality Improvement Program; ESA, extrassístole atrial; ESV, extrassístole ventricular; RCRI, Revised Cardiac Risk Index; ROC, característica de operação do receptor (área sob a curva); TV, taquicardia ventricular.
- Há variabilidade significativa no risco predito por diferentes ferramentas; os desfechos avaliados não são consistentes entre escores.
- Escores têm pior discriminação em cirurgia vascular, provavelmente por subestimar o risco de IAM.
- Poucos estudos modificaram condutas com base nessas ferramentas.
- Estudo recente: combinar índices tradicionais com o cálcio coronariano estimado em TC de tórax não sincronizada do ano anterior pode melhorar a estratificação.
- Estratégia simples com 3 fatores (HAS, diabetes, tabagismo atual): IAM de 0,10% em quem não tinha nenhum.
- Classificação ASA descreve estado geral de saúde (não é escore CV específico).
- RCRI: triagem rápida à beira do leito; ótimo para comunicar “baixo vs elevado”.
- MICA / ACS NSQIP: quando se quer um número individualizado para decisão compartilhada.
- Vascular: desconfie de valores baixos — os escores subestimam IAM.
- Use uma ferramenta de forma consistente e complemente com capacidade funcional, fragilidade e, se indicado, biomarcadores.
❓ Pergunta-chaveQuais os 6 componentes do RCRI e qual pontuação define risco elevado?Ver resposta
Resposta: cardiopatia isquêmica, doença cerebrovascular, IC, insulinoterapia, creatinina ≥2,0 mg/dL e cirurgia de alto risco (intraperitoneal, intratorácica ou vascular). Risco elevado: RCRI >1.
💡 RCRI 0–1 com sintomas estáveis costuma encerrar a investigação.
❓ Pergunta-chaveEm que população o uso de calculadora de risco tem recomendação formal?Ver resposta
Resposta: pacientes com DCV conhecida considerados para CNC 2a B-NR.
💡 Não há recomendação de escore preferencial.
❓ Pergunta-chavePor que desconfiar de um risco calculado baixo em cirurgia vascular?Ver resposta
Resposta: porque os escores têm pior discriminação em cirurgia vascular, provavelmente por subestimar o risco de IAM.
💡 Em vascular, integre DAC subclínica, capacidade funcional e biomarcadores ao julgamento.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 3.1, Tabela 4.
5Capacidade funcional e DASI
Em pacientes que serão submetidos a CNC de risco elevado, é razoável realizar uma avaliação estruturada da capacidade funcional (como o Duke Activity Status Index [DASI]) para estratificar o risco de eventos cardiovasculares adversos perioperatórios.
- Capacidade funcional é medida em METs; 4 METs é o limiar de baixa capacidade funcional.
- Pergunta clássica: subir 2 lances de escada (atividade associada a >4 METs).
- Autorrelato de incapacidade de andar 4 quarteirões ou subir 2 lances de escada associou-se a quase 2× eventos CV intra-hospitalares (9,6% vs 5,2%).
- BASEL-PMI: <2 lances de escada → 1,63× mais morte, IAM, IC aguda ou arritmia grave em 30 dias; acrescentar capacidade funcional ao RCRI aumentou o poder preditivo.
- Estudo METS: a avaliação subjetiva do anestesiologista (boa >10, moderada 4–10, ruim <4 METs) não se associou aos desfechos; o DASI associou-se a morte ou IAM em 30 dias. DASI ≤34 associou-se a maior chance de morte/IAM em 30 dias.
- Rodapé das recomendações de estresse/angio-TC: baixa capacidade funcional = <4 METs ou DASI ≤34.
- Na maioria dos casos, pacientes funcionais e assintomáticos podem prosseguir sem testes CV adicionais. Em casos selecionados, teste de esforço dá medida objetiva.
| Atividade: você consegue… | Peso |
|---|---|
| Cuidar de si (comer, vestir-se, tomar banho, usar o banheiro) | 2,75 |
| Andar dentro de casa | 1,75 |
| Andar 1–2 quarteirões no plano | 2,75 |
| Subir um lance de escada ou uma ladeira | 5,5 |
| Correr uma distância curta | 8 |
| Trabalho doméstico leve (tirar pó, lavar louça) | 2,7 |
| Trabalho doméstico moderado (aspirar, varrer, carregar compras) | 3,5 |
| Trabalho doméstico pesado (esfregar chão, mover móveis pesados) | 8 |
| Jardinagem (rastelar folhas, capinar, empurrar cortador) | 4,5 |
| Ter relações sexuais | 5,25 |
| Recreação moderada (golfe, boliche, dança, tênis em duplas) | 6 |
| Esportes extenuantes (natação, tênis simples, basquete, esqui) | 7,5 |
O escore DASI é calculado somando-se os pontos de todas as atividades realizadas. Quanto maior o escore (faixa de 0–58,2), melhor o estado funcional.
Reproduzida de Hlatky et al.
| Achado | Interpretação | Consequência no fluxo |
|---|---|---|
| ≥4 METs / DASI >34, sintomas estáveis | Adequada | Prosseguir; estresse/angio-TC de rotina classe 3 |
| <4 METs / DASI ≤34 | Baixa | Com risco elevado: considerar biomarcadores; estresse/angio-TC 2b apenas em selecionados |
| Indeterminada (ex.: limitação ortopédica) | Desconhecida | Tratada como baixa/desconhecida no fluxo |
Fragilidade
Em todos os pacientes com ≥65 anos e naqueles mais jovens com suspeita de fragilidade, submetidos a CNC de risco elevado, a avaliação pré-operatória da fragilidade com ferramenta validada pode ser útil para estimar o risco perioperatório e orientar o manejo.
No original, o grupo mais jovem aparece como “<64 anos”.
Meta-análise (56 estudos, 1,1 milhão de idosos): fragilidade associou-se a mortalidade em 30 dias (RR 3,71) e complicações (RR 2,39). Ferramentas (Tabela 6): fenótipo de Fried, índice de acúmulo de déficits, Edmonton, FRAIL, Clinical Frailty Scale (categorias 5–8 = fragilidade leve a muito grave), SPPB. A Clinical Frailty Scale superou Fried e o Frailty Index em uma avaliação prospectiva. Pré-habilitação pode ajudar pacientes selecionados.
| Nome | Itens | Pontuação |
|---|---|---|
| Fenótipo de fragilidade física (fenótipo de Fried) | Lentidão, baixa atividade, perda de peso, exaustão, fraqueza (1 ponto cada) | 0 = não frágil 1–2 = pré-frágil 3–5 = frágil |
| Índice de acúmulo de déficits | Variável; tipicamente 30–70 itens de múltiplos domínios | Número de déficits/número de itens avaliados; escores mais altos indicam maior fragilidade |
| Edmonton Frail Scale | 10 itens em múltiplos domínios | Soma dos escores/17; escores mais altos indicam maior fragilidade |
| FRAIL Scale | Fadiga, subir escadas, deambulação, >5 doenças, perda de peso ≥5% (1 ponto cada) | 0 = não frágil 1–2 = intermediário 3–5 = frágil |
| Clinical Frailty Scale | 9 categorias, de muito apto a doente terminal, avaliadas pelo clínico | As categorias 5–8 indicam fragilidade leve, moderada, grave e muito grave |
| SPPB | Velocidade da marcha, levantar-se da cadeira, testes de equilíbrio | Máximo de 4 pontos por item; faixa de 0–12 pontos; ≥10 = não frágil; 3–9 = frágil; ≤2 = incapacitado |
Adaptada com permissão de frailtyscience.org.
SPPB indica Short Physical Performance Battery.
Aplique o DASI em 2 minutos na consulta: é validado, reprodutível e, no estudo METS, superou a impressão subjetiva do médico. Registre o escore — “DASI 28” comunica muito mais que “capacidade funcional regular”.
Assumir boa capacidade funcional porque o paciente “parece bem” ou “trabalha”. A estimativa subjetiva do clínico não se associou a desfechos no METS. Outro erro: esquecer que baixa capacidade por causa não cardíaca (artrose, DPOC, obesidade) também aumenta o risco.
❓ Pergunta-chaveQual valor de DASI define baixa capacidade funcional?Ver resposta
Resposta: DASI ≤34 (equivalente operacional a <4 METs, conforme rodapé das recomendações de estresse e angio-TC).
💡 DASI ≤34 associou-se a maior chance de morte ou IAM em 30 dias.
❓ Pergunta-chavePaciente com gonartrose grave que não anda 1 quarteirão: a baixa capacidade funcional “conta” no risco?Ver resposta
Resposta: sim. A diretriz afirma que <4 METs associa-se a maior risco de eventos cardíacos independentemente da causa da limitação (DAC, IC ou condição não cardíaca como artrite, pneumopatia ou obesidade).
💡 Nesses casos a capacidade é “baixa ou indeterminada” e o paciente segue para a etapa de biomarcadores se o risco for elevado.
❓ Pergunta-chaveQuem deve ter fragilidade avaliada?Ver resposta
Resposta: todos os pacientes ≥65 anos e os mais jovens com fragilidade percebida que farão CNC de risco elevado 2a B-NR.
💡 Fragilidade avançada + baixa expectativa de vida = conversar sobre objetivos de cuidado.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 3.2 (Tabela 5), 3.3 (Tabela 6) e 4.3.
6Biomarcadores: BNP, NT-proBNP e troponina
Em pacientes com DCV conhecida, ou idade ≥65 anos, ou idade ≥45 anos com sintomas sugestivos de DCV, submetidos a CNC de risco elevado, é razoável dosar BNP ou NT-proBNP antes da cirurgia para complementar a avaliação de risco.
Em pacientes com DCV conhecida, idade ≥65 anos ou idade ≥45 anos com sintomas sugestivos de DCV, submetidos a CNC de risco elevado, pode ser razoável dosar a troponina cardíaca (cTn) no pré-operatório para complementar a avaliação do risco perioperatório.
Em pacientes com DCV conhecida, sintomas de DCV ou idade ≥65 anos com fatores de risco cardiovascular, submetidos a CNC de risco elevado, pode ser razoável dosar a cTn 24 e 48 h após a cirurgia para identificar lesão miocárdica.
Em pacientes submetidos a CNC de baixo risco, o rastreamento pós-operatório rotineiro com cTn não está indicado na ausência de sinais ou sintomas sugestivos de isquemia miocárdica ou de IAM.
- cTn e BNP são baratos e amplamente disponíveis; têm alto valor prognóstico e excelente valor preditivo negativo.
- Não há estudos mostrando que um manejo guiado por biomarcadores elevados melhore desfechos. A utilidade em baixo risco não foi avaliada. Podem gerar cascata de testes.
- Subestudo do VISION: NT-proBNP pré-op >100 pg/mL associou-se de forma independente a mortalidade por todas as causas.
- Os limiares ótimos de BNP/NT-proBNP não estão claramente estabelecidos. Em coorte de 3.597 pacientes, NT-proBNP não melhorou significativamente a predição além de escores + capacidade funcional autorreferida.
- cTn pré-op pode identificar lesão miocárdica crônica; não há ação baseada apenas nisso, mas o valor basal ajuda a interpretar a troponina pós-operatória (agudo vs crônico). Acrescentar cTn ao RCRI melhora a predição de MACE.
- Lacuna de evidência: elevação isolada de troponina pré-op não justifica, por si só, teste de estresse ou cateterismo.
| Biomarcador | Em quem considerar | classe/nível de evidência | Limiar citado | O que muda |
|---|---|---|---|---|
| BNP / NT-proBNP pré-op | DCV conhecida, ≥65 anos, ou ≥45 com sintomas; CNC de risco elevado | 2a B-NR | Figura 1: BNP >92 ng/L; NT-proBNP ≥300 ng/L. VISION: NT-proBNP >100 pg/mL associado a mortalidade. Sem limiar ótimo estabelecido. | Refina prognóstico; anormal → considerar avaliação adicional se mudar conduta (ex.: eco, monitorização, discussão de risco) |
| Troponina pré-op | Mesma população | 2b B-NR | >p99 do LSR do ensaio | Basal para interpretar a troponina pós-op; sem ação baseada só nela |
| Troponina pós-op (24 e 48 h) | DCV conhecida, sintomas, ou ≥65 com fatores de risco; CNC de risco elevado | 2b B-NR | >p99 do LSR, com padrão de ascensão/queda | Diagnóstico de MINS → investigação e seguimento |
| Troponina pós-op de rotina em baixo risco | CNC de baixo risco, sem sintomas | 3: sem benefício B-NR | — | Não fazer |
O maior valor do biomarcador pré-operatório é tranquilizar (VPN alto) e documentar o basal. Um valor elevado não é indicação automática de teste de isquemia; ele deve levar à pergunta: “há algo tratável (IC não reconhecida, valvopatia, isquemia de alto risco) cuja investigação mudaria o plano?”.
Os limiares da Figura 1 (BNP >92 ng/L; NT-proBNP ≥300 ng/L; troponina >p99) são referência operacional do algoritmo; o texto afirma explicitamente que os limiares ótimos de peptídeos natriuréticos não estão estabelecidos.
❓ Pergunta-chaveHomem de 50 anos, assintomático, sem DCV, para colectomia: dosar NT-proBNP?Ver resposta
Resposta: não se enquadra na recomendação: ela vale para DCV conhecida, ≥65 anos ou ≥45 anos com sintomas sugestivos de DCV.
💡 Idade 45–64 exige sintomas para entrar no critério.
❓ Pergunta-chaveTroponina pré-operatória levemente elevada em paciente assintomático obriga cateterismo?Ver resposta
Resposta: não. A diretriz afirma que não há ação predicada apenas nesse achado e lista como lacuna que, sem outras indicações, não há evidência de benefício de estresse ou cateterismo por elevação isolada.
💡 Use como valor basal para o pós-operatório.
❓ Pergunta-chaveQual a classe da troponina pré-op versus BNP pré-op?Ver resposta
Resposta: BNP/NT-proBNP 2a B-NR; troponina 2b B-NR.
💡 Peptídeo “é razoável”; troponina “pode ser razoável”.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 3.4, 5.1 (Figura 1, rodapé §), 9.1, 11.1.1 e 12.
7ECG, ecocardiograma e função ventricular
🔬 ECG de 12 derivações
Em pacientes com doença coronariana conhecida, arritmia significativa, doença arterial periférica, doença cerebrovascular, outra cardiopatia estrutural significativa ou sintomas* de DCV, submetidos a cirurgia de risco elevado, é razoável obter ECG de 12 derivações em repouso no pré-operatório para estabelecer um traçado basal e orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes submetidos a CNC cujo ECG pré-operatório apresente anormalidades novas†, é razoável prosseguir a avaliação para refinar a estimativa do risco cardiovascular.
Em pacientes assintomáticos, sem DCV conhecida, submetidos a cirurgias de risco elevado, o ECG de 12 derivações em repouso no pré-operatório pode ser considerado para estabelecer um traçado basal e orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes assintomáticos submetidos a procedimentos cirúrgicos de baixo risco, o ECG pré-operatório de rotina em repouso não é recomendado para melhorar os desfechos.
*Sintomas e sinais ativos de DCV incluem dor torácica, dispneia, palpitações não esclarecidas, taquicardia, síncope ou sopros. †As anormalidades podem incluir supradesnivelamento ou infradesnivelamento do segmento ST, inversão de onda T, hipertrofia ventricular esquerda, ondas Q patológicas significativas, BAV Mobitz tipo II ou de grau mais avançado, bloqueio de ramo, prolongamento do QT ou FA.
| Situação | Recomendado? | Classe | Evidência | Comentário prático |
|---|---|---|---|---|
| DAC conhecida, arritmia significativa, DAP, doença cerebrovascular, outra cardiopatia estrutural significativa ou sintomas* de DCV, em cirurgia de risco elevado | Razoável | 2a | B-NR | Estabelecer basal e guiar manejo |
| ECG pré-op com anormalidades novas† | Avaliação adicional razoável | 2a | B-NR | Refinar o risco CV |
| Assintomático, sem DCV conhecida, cirurgia de risco elevado | Pode ser considerado | 2b | B-NR | Basal para comparação |
| Assintomático, cirurgia de baixo risco | NÃO (rotina) | 3: sem benefício | B-NR | Pouco efeito em conduta/complicações; gera cascata |
- O ECG raramente acrescenta prognóstico além das ferramentas de risco.
- Em geral, ECG anormal pouco altera o manejo, exceto: BAV 2º grau Mobitz II ou maior, FA com resposta rápida ou FA nova, e QT prolongado (influencia anestésicos, antieméticos, antibióticos).
- Q incidental ou bloqueio de ramo em assintomático pode indicar DAC, mas não deve levar à decisão de revascularizar antes da CNC.
- Não há idade/fator de risco de corte padronizado para ECG, nem intervalo ótimo entre ECG e cirurgia.
- Estudo em litotripsia (30.892 pacientes): ECG cancelou 0,04% dos procedimentos em baixo risco e não predisse complicações.
🔬 Função do VE (ecocardiograma)
Em pacientes submetidos a CNC com dispneia nova, achados de IC ao exame físico ou suspeita de disfunção ventricular nova ou agravada, recomenda-se avaliar a função do VE no pré-operatório para orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes com diagnóstico conhecido de IC, com piora da dispneia ou outra mudança do quadro clínico, submetidos a CNC, é razoável avaliar a função do VE no pré-operatório para orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes assintomáticos e clinicamente estáveis submetidos a CNC, a avaliação pré-operatória de rotina da função do VE não é recomendada, por ausência de benefício.
| Situação | Recomendado? | Classe | Evidência | Comentário prático |
|---|---|---|---|---|
| Dispneia nova, sinais de IC ao exame, ou suspeita de disfunção ventricular nova/piorada | SIM | 1 | B-NR | Guiar manejo perioperatório |
| IC conhecida com piora da dispneia ou outra mudança clínica | Razoável | 2a | C-LD | Reavaliar antes da cirurgia |
| Assintomático e clinicamente estável | NÃO (rotina) | 3: sem benefício | B-NR | Coortes grandes sem benefício, mesmo em maior risco |
| Suspeita de EAo moderada/grave e CNC de risco elevado | SIM | 1 | C-EO | Eco em até 1 ano (seção 16) |
| Suspeita de regurgitação moderada/grave, antes de CNC eletiva | SIM | 1 | C-EO | Eco ≤12 meses aceitável se clínica inalterada |
- Disfunção sistólica ou diastólica associa-se a mais MACE; risco maior com FEVE menor, cirurgia de maior risco e comorbidades.
- FEVE ≤30% no eco pré-op foi preditor independente de mortalidade em 30 dias (cirurgias intermediárias/altas).
- Disfunção diastólica grau 3: ~70% mais MACE que graus 1–2.
- Coorte de 264.823 pacientes (70.996 pareados): eco pré-op não associado a melhores desfechos. Coorte VA: eco pré-op (16,4%) sem melhora de sobrevida ou permanência.
- Em pacientes de alto risco para CNC de alto risco, o julgamento clínico pode indicar eco quando o resultado alteraria o manejo.
- FoCUS pré-operatório: estudos pequenos; pode identificar quem precisa de avaliação adicional somente quando feito por pessoa treinada. ETT abrangente continua sendo o padrão.
🔬 Função do VD
IM, IT e/ou HP podem reduzir a função do VD, independentemente associada a desfechos adversos. Eco é geralmente o primeiro exame; ressonância é padrão-ouro quantitativo em casos selecionados. Avaliação de rotina da função do VD não é recomendada em assintomáticos e clinicamente estáveis.
- ECG de rotina em assintomático para cirurgia de baixo risco (3: sem benefício).
- Eco “de rotina” em paciente estável e assintomático, mesmo idoso ou de maior risco (3: sem benefício).
- Revascularização motivada apenas por Q ou bloqueio de ramo incidental no ECG.
O gatilho do eco é sintoma, sinal ou mudança clínica (ou suspeita de valvopatia significativa), não a idade ou o porte da cirurgia.
❓ Pergunta-chaveQuais achados de ECG realmente tendem a mudar o manejo perioperatório?Ver resposta
Resposta: BAV de 2º grau Mobitz II ou maior, FA com resposta ventricular rápida ou FA nova, e QT prolongado.
💡 QT longo muda escolha de anestésicos, antieméticos e antibióticos.
❓ Pergunta-chavePaciente com IC compensada, sem mudança clínica, eco de 2 anos atrás: repetir eco antes de cirurgia de risco elevado?Ver resposta
Resposta: a recomendação 2a (C-LD) vale para IC com piora da dispneia ou mudança clínica; em estável e assintomático, avaliação de rotina é 3: sem benefício. Em alto risco para CNC de alto risco, o julgamento clínico pode indicar eco se o resultado alterar o manejo.
💡 Pergunte o que o novo eco mudaria (monitorização, destino, otimização).
❓ Pergunta-chaveFoCUS pode substituir o ETT na avaliação pré-operatória?Ver resposta
Resposta: não. O FoCUS pode ser considerado, por pessoa treinada, para identificar quem precisa de avaliação adicional; o ETT abrangente continua o padrão para avaliar a função do VE.
💡 FoCUS alterado = pedir eco completo, não “fechar diagnóstico”.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 4.1, 4.2.1, 4.2.2, 6.4.1, 6.4.3 e 11.1.2.
8Teste de isquemia (estresse) e CPET
👉 Se o resultado vier alterado, isso mudará o tratamento?
Em pacientes que serão submetidos a CNC de risco elevado, com capacidade funcional baixa ou desconhecida e risco elevado de eventos cardiovasculares perioperatórios segundo ferramenta validada, o teste de estresse pode ser considerado para investigar isquemia miocárdica induzível.
Em pacientes de baixo risco para eventos CV, com capacidade funcional adequada* e sintomas estáveis, ou submetidos a procedimentos de baixo risco, teste de estresse de rotina antes da CNC não é recomendado por falta de benefício.
*Baixa capacidade funcional = <4 METs ou DASI ≤34.
- Isquemia reversível associa-se a mais eventos, mas o valor preditivo positivo é modesto, sem clara informação incremental sobre RCRI ou peptídeos natriuréticos.
- Testes são caros, podem gerar cascata e atrasar a cirurgia; revascularização pré-op não reduziu MACE ou mortalidade cardíaca.
- O objetivo não é identificar DAC não diagnosticada, e sim identificar pacientes em que a revascularização melhoraria desfechos: lesão de tronco ou multiarterial grave com FEVE reduzida.
- Teste alterado não deve levar a coronariografia/revascularização a menos que tenha características de alto risco.
- Estresse pode ser considerado em selecionados se houver suspeita de isquemia de alto risco ou indicação de teste independente da cirurgia.
- Não fazer em baixo risco (ex.: RCRI = 0) ou em cirurgia de baixo risco — vale para pacientes com ou sem DAC conhecida/suspeita.
- CARP: 510 pacientes com DAC (≥70%) antes de cirurgia vascular; revascularização atrasou a cirurgia em 36 dias, sem diferença em IAM em 30 dias ou mortalidade em 2,7 anos.
| Cenário | Conduta | classe/nível de evidência |
|---|---|---|
| Risco elevado + CF <4 METs/DASI ≤34 ou desconhecida + CNC de risco elevado + suspeita de isquemia de alto risco ou indicação independente | Pode ser considerado | 2b B-NR |
| Baixo risco (ex.: RCRI 0) | Não fazer rotina | 3 B-R |
| CF ≥4 METs com sintomas estáveis | Não fazer rotina | 3 B-R |
| Cirurgia de baixo risco | Não fazer rotina | 3 B-R |
| Cirurgia de emergência | Não atrasar | — |
| Teste alterado sem características de alto risco | Não indicar cateterismo/revascularização por isso | Texto de suporte |
Escolha da modalidade
| Modalidade | Contraindicação* |
|---|---|
| Imagem de estresse farmacológico com vasodilatador | Arritmias significativas (ex.: TV, BAV de 2º ou 3º grau), hipotensão significativa (PAS <90 mmHg), doença broncoconstritiva ou broncoespástica conhecida ou suspeita, ou uso de dipiridamol ou metilxantinas (ex.: aminofilina, cafeína) nas últimas 12 h |
| Teste de estresse com exercício (com ou sem imagem) | Incapacidade de se exercitar |
| Ecocardiograma de estresse com dobutamina | Estenose aórtica crítica, obstrução hemodinamicamente significativa da VSVE |
*Em geral, as seguintes contraindicações se aplicam a todas as modalidades de teste de estresse: SCA, IC descompensada, estenose aórtica grave/sintomática, arritmia não controlada, hipertensão arterial sistêmica (ex.: ≥200/110 mmHg), dissecção aórtica aguda, pericardite/miocardite, embolia pulmonar e HP grave.
SCA indica síndrome coronariana aguda; IC, insuficiência cardíaca; VSVE, via de saída do ventrículo esquerdo; HP, hipertensão pulmonar; PAS, pressão arterial sistólica; TV, taquicardia ventricular.
Esforço é preferível ao farmacológico quando o paciente consegue se exercitar. Cintilografia: defeitos reversíveis moderados a grandes têm sensibilidade moderada; ausência de defeitos reversíveis indica menor risco; defeitos fixos não indicam risco pós-operatório adicional. Eco-dobutamina: positividade de 5–50%, VPP 0–37%, VPN tipicamente >90%. Evidência limitada para PET e RM de estresse.
CPET (teste cardiopulmonar)
Em pacientes de alto risco, com capacidade funcional objetivamente reduzida, para procedimentos de risco elevado e quando dados fisiológicos adicionais guiariam otimização, o CPET pode ser útil. É padrão-ouro de capacidade funcional, diferencia causa cardíaca vs pulmonar, orienta pré-habilitação e prediz morbidade global. Limiares variam entre coortes (ex.: limiar anaeróbio caiu de 11 para 9–10 mL/min/kg ao longo do tempo). Teste de caminhada de 6 minutos é alternativa mais simples, com correlação variável.
Se você não revascularizaria o paciente mesmo com isquemia moderada (porque DAC não-tronco estável não tem benefício), então o teste não muda a conduta. O teste só faz sentido se você estiver procurando TCE/multiarterial grave ou se ele estivesse indicado mesmo sem cirurgia.
❓ Pergunta-chavePaciente assintomático de baixo risco precisa de teste de isquemia antes da cirurgia?Ver resposta
Resposta: não. 3: sem benefício B-R.
Não houve benefício de revascularização guiada por estresse; o teste atrasa a cirurgia, custa e gera cascata. Vale inclusive com DAC conhecida ou suspeita.
💡 Baixo risco (ex.: RCRI 0) → prosseguir.
❓ Pergunta-chaveQual o verdadeiro objetivo do teste de isquemia pré-operatório?Ver resposta
Resposta: identificar pacientes em quem a revascularização melhoraria desfechos — TCE ou multiarterial grave com FEVE reduzida — e não diagnosticar DAC em geral.
💡 Isquemia sem alto risco não justifica cateterismo.
❓ Pergunta-chaveQual contraindicação específica do eco com dobutamina a Tabela 7 destaca?Ver resposta
Resposta: estenose aórtica crítica e obstrução hemodinamicamente significativa da VSVE.
💡 Na CMH obstrutiva, dobutamina é mal escolha.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 4.3, 4.3.1 (Tabela 7), 4.4 e 11.1.4.
9Angio-TC e coronariografia invasiva
🔬 Angiotomografia de coronárias (angio-TC)
Em pacientes que serão submetidos a cirurgia de risco elevado, com capacidade funcional baixa* ou desconhecida e risco elevado de eventos cardiovasculares perioperatórios segundo ferramenta validada, a angiotomografia de coronárias (angio-TC) pode ser considerada para detectar anatomia coronariana de alto risco†.
*Baixa capacidade funcional: <4 METs ou DASI ≤34. †Anatomia coronariana de alto risco: estenose obstrutiva ≥50% do tronco da coronária esquerda ou doença triarterial anatomicamente significativa (≥70%).
Em pacientes de baixo risco, com capacidade funcional adequada e sintomas estáveis, ou submetidos a procedimentos de baixo risco, angio-TC de rotina antes da CNC não é recomendada por falta de benefício.
- Angio-TC positiva tem baixo valor preditivo (superestima MACE) → atrasos e dano potencial. Comparada a escores clínicos, é >5 vezes mais propensa a superestimar o risco em quem não terá MACE.
- Alto valor preditivo negativo. Meta-análise (11 estudos, 3.480 pacientes): uni e multiarterial com risco 3× e 8× maior de MACE.
- Coronary CTA-VISION: melhora apenas marginal da estimativa de risco.
- Escore de cálcio zero nos últimos 2 anos → prosseguir sem testes adicionais seria razoável.
- Angio-TC é contraindicada e pode ser prejudicial em cirurgia urgente ou de emergência.
🔬 Coronariografia invasiva (cateterismo)
Em pacientes submetidos a CNC, o cateterismo cardíaco (coronariografia invasiva) pré-operatório de rotina não é recomendado para melhorar os desfechos perioperatórios.
- Dados insuficientes para cateterismo de rotina, inclusive em cirurgia de risco elevado ou avaliação pré-transplante; mesmo em vascular, não se associa consistentemente a melhores desfechos precoces.
- Dois ECR europeus pequenos sugeriram benefício, mas eram não cegos e não replicados; o CARP, mais robusto, foi negativo.
- Indicações de cateterismo pré-operatório devem ser semelhantes às do contexto não operatório: SCA, angina em aceleração apesar de terapia máxima, isquemia moderada-grave recém-diagnosticada no estresse, e indicadores de lesão de TCE em teste não invasivo.
| Situação | Recomendado? | Classe | Evidência | Comentário prático |
|---|---|---|---|---|
| Risco elevado + CF baixa/desconhecida + cirurgia de risco elevado, buscando anatomia de alto risco | Pode ser considerada (angio-TC) | 2b | B-NR | Só se houver indicação independente da cirurgia |
| Baixo risco / CF adequada / cirurgia de baixo risco | NÃO (angio-TC) | 3 | B-NR | Superestima risco |
| Cirurgia urgente/emergência | NÃO (angio-TC) | — | texto | Contraindicada, pode ser prejudicial |
| CAC = 0 nos últimos 2 anos | Prosseguir | — | texto | Sem testes adicionais |
| cateterismo de rotina pré-operatória | NÃO | 3 | C-LD | Reservar às indicações clássicas |
Angio-TC ou cateterismo “para liberar” a cirurgia. Ambos só se justificam quando a indicação existiria sem a cirurgia e o achado pode mudar a conduta.
❓ Pergunta-chaveO que a diretriz define como anatomia coronariana de alto risco na angio-TC?Ver resposta
Resposta: estenose de tronco ≥50% ou doença de 3 vasos anatomicamente significativa (≥70%).
💡 É o que a angio-TC pré-operatória procura — não placa em geral.
❓ Pergunta-chavePaciente com escore de cálcio zero há 18 meses, para cirurgia de risco elevado: precisa de outro exame anatômico?Ver resposta
Resposta: segundo o texto de suporte, CAC = 0 nos últimos 2 anos torna razoável prosseguir sem testes adicionais.
💡 Aproveite exames prévios antes de pedir novos.
❓ Pergunta-chaveQuando o cateterismo pré-operatório está indicado?Ver resposta
Resposta: nas mesmas situações do contexto não operatório: SCA, angina em aceleração apesar de terapia máxima, isquemia moderada-grave nova, sinais de TCE em teste não invasivo. Rotina: 3: sem benefício C-LD.
💡 A cirurgia não cria indicação de cateterismo.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 4.5, 4.6 e 11.1.3.
10Doença arterial coronariana e revascularização
- DAC presente em ~18% dos pacientes em CNC maior; SCA confere mais risco que doença coronariana crônica (DCC). IAM prévio: 3,5× MACE nas coortes do RCRI.
- Stent nos últimos 2 anos: chance de MACE 2× maior; o risco é inversamente proporcional ao tempo desde a revascularização.
- Atenção cuidadosa à terapia médica otimizada da DCVA antes da CNC eletiva.
Em pacientes com SCA considerados para CNC eletiva, recomenda-se revascularização coronariana conforme apropriado e adiamento da cirurgia para reduzir eventos CV perioperatórios.
Em pacientes com DCC e estenose hemodinamicamente significativa ≥50% do tronco da coronária esquerda, com CNC eletiva planejada, são razoáveis a revascularização coronariana e o adiamento da cirurgia para reduzir eventos cardiovasculares perioperatórios.
Em pacientes com DAC sem acometimento do tronco da coronária esquerda, com CNC planejada, a revascularização coronariana pré-operatória de rotina não é recomendada para reduzir eventos cardiovasculares perioperatórios.
Modificada da diretriz ACC/AHA/SCAI 2021 de revascularização coronariana.
DAC não-tronco estável: revascularização de rotina pré-CNC é Classe 3: sem benefício (B-R). Revascularize quando houver indicação própria (SCA, TCE, angina refratária à TMO com decisão do heart team).
- SCA: STEMI → reperfusão imediata com ICP primária; UA/NSTEMI → revascularização especialmente com choque, angina refratária, arritmias intratáveis, instabilidade hemodinâmica ou GRACE >140. Quando possível, adiar a CNC.
- TCE: pacientes com tronco foram excluídos de ISCHEMIA, COURAGE e BARI-2D. Dados antigos: CRM reduz mortalidade no TCE; em CNC vascular, TCE não protegido foi o único subgrupo com benefício de sobrevida da revascularização pré-op. Pesar riscos cumulativos da revascularização + CNC, estado geral, capacidade funcional e prognóstico.
- Angina refratária à TMO: abordagem multidisciplinar (heart team) para revascularização antes da CNC planejada.
- A diretriz de revascularização 2021 pode ser aplicada desde que a cirurgia possa ser adiada com segurança para acomodar a DAPT.
- Transplante, cirurgia vascular e/ou DAC multiarterial: input multidisciplinar para necessidade e momento da revascularização.
- CARP: ICP ou CRM profilático antes de cirurgia vascular maior sem diferença em morte/IAM em 30 dias ou 1 ano (excluiu TCE, FEVE <20% e EAo grave). Meta-análise (3.949 pacientes): sem benefício. Revascularização desloca mortalidade de causas CV para não CV, sem redução absoluta. Sangramento maior com ICP, sobretudo nos primeiros 6 meses após DES.
| Aspecto | ICP | CRM |
|---|---|---|
| Consequência para o momento da CNC | Exige DAPT; CNC eletiva com interrupção antiplaquetária idealmente ≥6 meses (DCC) ou ≥12 meses (SCA) após DES | Recuperação de uma cirurgia de grande porte antes da CNC |
| Sangramento na CNC | Maior, sobretudo nos primeiros 6 meses após DES | — |
| TCE | Métodos bayesianos sugerem benefício de sobrevida semelhante ao CRM vs tratamento clínico | Dados antigos de redução de mortalidade |
A escolha entre ICP e CRM segue a diretriz de revascularização; no contexto cirúrgico, o que pesa a mais é quanto tempo a CNC pode esperar (DAPT após ICP) e o risco de sangramento da cirurgia planejada. Decida em heart team.
❓ Pergunta-chaveDAC triarterial estável, FEVE normal, sem TCE, para cirurgia vascular: revascularizar antes?Ver resposta
Resposta: não de rotina. DAC não-tronco: 3: sem benefício B-R (CARP).
💡 Otimize TMO; revascularização só com indicação independente.
❓ Pergunta-chaveLesão de tronco de 60% em DCC, cirurgia eletiva: qual a recomendação?Ver resposta
Resposta: revascularização e adiamento da cirurgia são razoáveis 2a C-LD.
💡 Pese o risco somado de revascularização + CNC e o prognóstico do paciente.
❓ Pergunta-chaveNSTEMI há 5 dias, colecistectomia eletiva agendada: o que fazer?Ver resposta
Resposta: revascularização conforme apropriado e adiamento da CNC eletiva 1 C-LD.
💡 Se houver stent, o momento da CNC passa a seguir as regras pós-PCI (≥12 meses após DES por SCA, idealmente, se exigir interrupção antiplaquetária).
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.1 e 6.1.1.
11Cirurgia após ICP / stent: quanto tempo esperar?
Em pacientes com DAC submetidos a CNC eletiva, o manejo da terapia antiplaquetária e o momento da cirurgia devem ser definidos por equipe multidisciplinar com decisão compartilhada, pesando sangramento, trombose e consequências de adiar a cirurgia.
Momento da CNC após ICP
Em pacientes com angioplastia coronariana recente com balão, sem implante de stent, a CNC eletiva deve ser adiada por no mínimo 14 dias para minimizar MACE perioperatório.
Em pacientes com ICP com DES realizada por SCA que necessitam de CNC eletiva com interrupção de ≥1 antiplaquetário, a cirurgia deve idealmente ser adiada por ≥12 meses para minimizar MACE perioperatório.
Em pacientes com ICP com DES realizada por DCC que necessitam de CNC eletiva com interrupção de ≥1 antiplaquetário, é razoável adiar a cirurgia por ≥6 meses após a ICP para minimizar MACE perioperatório.
Em pacientes com ICP com DES que necessitam de CNC tempo-sensível com interrupção de ≥1 antiplaquetário, a CNC pode ser considerada ≥3 meses após a ICP se o risco de adiar a cirurgia superar o risco de MACE.
Em pacientes com ICP recente (≤30 dias) com BMS ou DES, a CNC eletiva que exija interrupção de ≥1 antiplaquetário é potencialmente prejudicial, pelo alto risco de trombose de stent e de complicações isquêmicas.

Leitura em texto: Angioplastia com balão apenas (sem stent) → adiar a CNC por >14 dias 1. ICP com BMS → adiar a CNC por >30 dias 1. ICP com DES por SCA → adiar a CNC por ≥12 meses após a ICP 1; adiar por ≥3 meses se houver indicação tempo-sensível para a cirurgia 2b; se ICP com DES há ≤1 mês, não realizar a CNC 3: dano. ICP com DES por DCC → adiar a CNC por ≥6 meses após a ICP 2a; ≥3 meses se indicação tempo-sensível 2b; se ≤1 mês, não realizar a CNC 3: dano.
As cores correspondem à classe de recomendação (Tabela 3). No original em inglês, o quadro “Ballon angioplasty” está grafado assim.
| Cenário | Intervalo mínimo / conduta | Classe | Evidência |
|---|---|---|---|
| Angioplastia com balão, sem stent | ≥14 dias (com DAPT ininterrupta, pelo texto) | 1 | C-LD |
| BMS ou DES recente (≤30 dias), CNC eletiva com interrupção | Não operar (dano) | 3: dano | B-NR |
| BMS (texto de suporte) | CNC eletiva após ≥30 dias de DAPT ininterrupta; BMS raros atualmente | — | texto |
| DES por DCC, CNC eletiva com interrupção | ≥6 meses | 2a | B-NR |
| DES por SCA, CNC eletiva com interrupção | ≥12 meses (idealmente) | 1 | B-NR |
| DES, CNC tempo-sensível com interrupção | ≥3 meses, se risco de adiar > risco de MACE | 2b | B-NR |
| CNC tempo-sensível <30 dias de BMS ou <3 meses de DES | Manter DAPT, salvo se sangramento superar o benefício | 1 | B-NR |
| Alto risco trombótico, CNC não adiável, <6 meses de DES ou <30 dias de BMS | Ponte com antiplaquetário IV pode ser considerada | 2b | B-NR |
| CNC urgente que exige interromper DAPT (texto) | Angioplastia com balão sem stent pode ser considerada, com CNC adiada ≥14 dias | — | texto |
- Risco de trombose de stent perioperatória é máximo nas primeiras 4–6 semanas, declina mas persiste até 6 meses. Maior nas primeiras 4–6 semanas após BMS e nos primeiros 3 meses após DES.
- ICP por IAM: quase 3× mais MACE pós-operatório que ICP por DCC.
- Dinamarca: CNC <1 mês após DES → 13× mais morte cardíaca e 4× mais mortalidade total.
- MACE após CNC eletiva maior >6 meses pós-DES: 1,2% (estudo canadense), aproximando-se do risco de pacientes sem ICP.
- Tipo de stent, tempo desde a ICP e indicação da ICP são fatores da decisão compartilhada.
- DAPT mais curta (28–31 ou 90 dias) é possível em selecionados fora da cirurgia, mas sua segurança antes de CNC requer mais estudos.
- ≤30 dias de qualquer stent; <3 meses de DES.
- ICP por SCA/IAM.
- ICP complexa (bifurcação, stents longos, multiarterial) ou detalhes desconhecidos.
Nesses cenários: adiar a CNC eletiva; se inadiável, manter DAPT sempre que o sangramento permitir e discutir em equipe.
❓ Pergunta-chaveDES implantado há 4 meses por DCC; artroplastia eletiva de quadril exige suspender clopidogrel. Operar agora?Ver resposta
Resposta: é razoável adiar até ≥6 meses 2a B-NR. A cirurgia é eletiva, não tempo-sensível.
💡 A janela de 3 meses (2b) é para cirurgia tempo-sensível.
❓ Pergunta-chaveCâncer de cólon (tempo-sensível) 2 meses após DES: qual a conduta com a DAPT?Ver resposta
Resposta: CNC tempo-sensível <3 meses após DES → manter DAPT, salvo se o risco de sangramento superar o benefício 1 B-NR. Decisão multidisciplinar.
💡 Se a interrupção for inevitável, ≥3 meses (2b) é o marco mínimo a considerar.
❓ Pergunta-chaveQuanto esperar após angioplastia com balão sem stent?Ver resposta
Resposta: no mínimo 14 dias 1 C-LD.
💡 Balão sem stent é opção quando se prevê CNC urgente que exigirá interromper DAPT.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 7.5 (recomendações 1–6, 8, 10), Figura 5.
12Hipertensão e pressão arterial perioperatória
Pré-operatório
Na maioria* dos pacientes hipertensos com CNC eletiva planejada, é razoável manter o tratamento anti-hipertensivo durante todo o perioperatório.
*Cautela ao manter os anti-hipertensivos em pacientes com PA baixa ou normal-baixa no perioperatório, em idosos (≥65 anos) e naqueles com alto risco de hipotensão perioperatória, considerando o estado clínico global, o tipo de cirurgia e o plano anestésico. Modificada da diretriz ACC/AHA 2017 de hipertensão arterial.
Em pacientes que serão submetidos a cirurgia eletiva de risco elevado, com fatores de risco cardiovascular para complicações perioperatórias‡ e história recente de hipertensão mal controlada (PAS ≥180 mmHg ou PAD ≥110 mmHg antes do dia da cirurgia), pode ser considerado adiar a cirurgia para reduzir o risco de complicações perioperatórias.
‡Um ou mais componentes do RCRI: DAC, insuficiência cardíaca congestiva, AVC, creatinina sérica basal >2,0 mg/dL ou insulinoterapia pré-operatória. Modificada da diretriz ACC/AHA 2017 de hipertensão arterial.
Intraoperatório
Em pacientes submetidos a CNC, recomenda-se manter a pressão arterial média (PAM) ≥60–65 mmHg ou a PAS ≥90 mmHg no intraoperatório para reduzir o risco de lesão miocárdica.
Pós-operatório
Em pacientes submetidos a CNC, recomenda-se tratar a hipotensão no pós-operatório (PAM <60–65 mmHg ou PAS <90 mmHg) para limitar o risco de eventos cardiovasculares, cerebrovasculares e renais e de mortalidade.
Em pacientes hipertensos submetidos a CNC, recomenda-se reintroduzir os anti-hipertensivos pré-operatórios assim que clinicamente razoável, para evitar complicações da hipertensão pós-operatória.
- Hipertensão perioperatória afeta ~25% das CNC maiores e é causa frequente de adiamento.
- PAD pré-op >90 mmHg associou-se a maior mortalidade em 30 dias (UK CPRD).
- PAS pré-indução >160 mmHg associou-se a desfecho composto apenas em quem tinha ≥1 componente do RCRI. Sem componentes do RCRI, pouca evidência de risco com PA <180/110 ou com qualquer PA pré-indução.
- PA elevada no dia da cirurgia pode ser efeito do jaleco branco → usar a PA ambulatorial basal.
- Limiar de dano observacional: PAM <65 ou PAS <90 por cerca de 15 minutos. POISE-3 (alvo PAM ≥80 vs ≥60) e outro ECR (≥75 vs ≥60) não mostraram benefício de metas mais altas → evidência insuficiente para alvos maiores.
- POISE-2: cada 10 minutos de PAS <90 até o 4º dia pós-op → OR 2,83 para IAM/morte.
- Retardo na reintrodução de IECA/BRA associou-se a maior mortalidade em 30 dias; porém, intensificar anti-hipertensivos na alta em homens ≥65 anos associou-se a mais readmissão e eventos adversos.
- Betabloqueador e clonidina: rebote se suspensos abruptamente; IECA/BRA: mais hipotensão intraoperatória se mantidos. Se não puder usar VO, anti-hipertensivo IV é razoável.
- PA ≥180/110 recente + componente do RCRI + cirurgia eletiva de risco elevado → considerar adiar e controlar.
- PA alta só no dia da cirurgia, sem RCRI → não adiar por isso.
- Metas intraop: PAM ≥60–65 / PAS ≥90; hipotensão é mais perigosa que hipertensão moderada.
❓ Pergunta-chavePA 186/112 na admissão, sem DAC/IC/AVC/DRC/insulina, cirurgia eletiva de mama: adiar?Ver resposta
Resposta: não pela diretriz. A recomendação de considerar adiar (2b, C-LD) exige cirurgia de risco elevado, componente do RCRI e PA mal controlada antes do dia da cirurgia. Sem RCRI, há pouca evidência de risco com qualquer PA pré-indução.
💡 Verifique a PA ambulatorial; trate e reavalie.
❓ Pergunta-chaveQual alvo de PA intraoperatória tem recomendação classe 1?Ver resposta
Resposta: PAM ≥60–65 mmHg ou PAS ≥90 mmHg 1 B-NR.
💡 Não há evidência de benefício para metas mais altas (ex.: PAM ≥80 no POISE-3).
❓ Pergunta-chaveQuando reintroduzir os anti-hipertensivos?Ver resposta
Resposta: assim que clinicamente razoável 1 C-EO.
💡 Retomar ≠ intensificar na alta.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 6.2.
13Insuficiência cardíaca
Em pacientes com IC submetidos a CNC eletiva, os inibidores do SGLT2 (iSGLT2) devem ser suspensos 3 a 4 dias* antes da cirurgia, quando possível, para reduzir o risco de acidose metabólica perioperatória.
*Canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina devem ser suspensas ≥3 dias, e a ertugliflozina ≥4 dias antes da cirurgia programada.
Em pacientes com IC compensada submetidos a CNC, é razoável manter a terapia medicamentosa otimizada (TMO), exceto os iSGLT2, durante o perioperatório, salvo contraindicação, para reduzir o risco de piora da IC.
Em pacientes em uso crônico de inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (iSRAA) por ICFEr, é razoável mantê-los no perioperatório.
Modificada da diretriz AHA/ACC/HFSA 2022 de insuficiência cardíaca.
Em pacientes submetidos a CNC com dispneia nova, achados de IC ao exame físico ou suspeita de disfunção ventricular nova ou agravada, recomenda-se avaliar a função do VE no pré-operatório para orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes com diagnóstico conhecido de IC, com piora da dispneia ou outra mudança do quadro clínico, submetidos a CNC, é razoável avaliar a função do VE no pré-operatório para orientar o manejo perioperatório.
- Mortalidade em 30 dias: IC não isquêmica 9,3% e isquêmica 9,2% vs DAC 2,9% → IC tem ~3× mais risco de morte que DAC isolada.
- Sintomas/sinais ativos de IC → mais risco que IC compensada ou apenas história de IC.
- Otimizar o tratamento antes de cirurgia de risco elevado associa-se a menos complicações; interromper TMO sem indicação associa-se a maior mortalidade.
- TMO da ICFEr: INRA/IECA/BRA, betabloqueador, antagonista mineralocorticoide e iSGLT2. Há terapias para ICFEmr, ICFEp, ICFE melhorada e estágio B.
- IC avançada (NYHA III–IV) descompensada ou hemodinamicamente instável: considerar adiar cirurgia eletiva e obter consulta cardiológica.
| N | Mortalidade bruta | OR bruto | OR ajustado | |
|---|---|---|---|---|
| Sem insuficiência cardíaca | 561.738 | 1,22% | Referência | Referência |
| ICFEp, FEVE ≥50% | 28.742 | 4,88% | 4,14 (3,90–4,39) | 1,51 (1,40–1,62) |
| FEVE 40%–49% | 7.612 | 5,11% | 4,34 (3,91–4,82) | 1,53 (1,38–1,71) |
| FEVE 30%–39% | 6.048 | 6,58% | 5,68 (5,12–6,31) | 1,85 (1,68–2,05) |
| FEVE <30% | 4.185 | 8,34% | 7,34 (6,56–8,21) | 2,35 (2,09–2,63) |
Adaptada com permissão de Lerman et al.
ICFEp indica insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada; FEVE, fração de ejeção do ventrículo esquerdo; OR, odds ratio (com IC 95%).
Outra coorte: mortalidade em 90 dias de 5,49% (IC sintomática), 4,9% (IC assintomática) e 1,2% (sem IC).
- IC descompensada ou hemodinamicamente instável, sobretudo NYHA III–IV → adiar eletiva, consultar cardiologia (texto de suporte).
- Dispneia nova, sinais de congestão ou suspeita de disfunção nova → avaliação da função do VE antes (1, B-NR).
- Piora clínica em IC conhecida → reavaliar (2a, C-LD).
- IC descompensada é uma das condições agudas que interrompem o fluxo na Figura 1.
A Tabela 8 mostra que a ICFEp também tem risco substancialmente maior que a ausência de IC (OR 1,51), e o risco cresce à medida que a FEVE cai. Na prática: compensada → manter TMO (menos iSGLT2), planejar volume e monitorização; descompensada → tratar antes. Monitorização invasiva ou cateter de artéria pulmonar podem ser considerados se a condição que afeta a hemodinâmica não puder ser corrigida (PAC 2b, C-LD).
❓ Pergunta-chaveICFEr compensada em uso de sacubitril/valsartana, bisoprolol, espironolactona e dapagliflozina: o que suspender?Ver resposta
Resposta: suspender a dapagliflozina ≥3 dias antes 1 C-LD; continuar a TMO restante é razoável 2a C-LD. iSRAA na ICFEr: continuação razoável 2a C-EO.
💡 Não há dados perioperatórios específicos para sacubitril/valsartana (lacuna declarada).
❓ Pergunta-chaveIC com FEVE preservada aumenta o risco perioperatório?Ver resposta
Resposta: sim: mortalidade de 4,88% vs 1,22% sem IC (OR ajustado 1,51, Tabela 8).
💡 “FE normal” não significa risco normal.
❓ Pergunta-chavePaciente NYHA IV, congesto, para herniorrafia eletiva: prosseguir?Ver resposta
Resposta: não. IC avançada descompensada → considerar adiar a cirurgia eletiva e obter consulta cardiológica.
💡 Compensar primeiro; depois reavaliar risco.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.3 (Tabela 8), 4.2.1, 7.2 e 8.3.4.
14Cardiomiopatia hipertrófica (CMH)
Em pacientes com CMH submetidos a CNC, os fatores que agravam ou desencadeiam obstrução dinâmica da via de saída (ex.: agentes inotrópicos positivos, taquicardia ou redução da pré-carga) são prejudiciais e devem ser evitados, para reduzir o risco de instabilidade hemodinâmica.
| Considerações de manejo |
|---|
| Manter betabloqueadores e/ou bloqueadores dos canais de cálcio não di-hidropiridínicos, sem interrupção, no período perioperatório |
| Evitar hipovolemia e redução da pré-carga (podem agravar a obstrução da VSVE) |
| Evitar hipotensão e redução da pós-carga (podem agravar a obstrução da VSVE) |
| Evitar taquicardia, para garantir enchimento adequado do VE |
Se ocorrer hipotensão:
|
VE indica ventrículo esquerdo; VSVE, via de saída do ventrículo esquerdo.
- CMH: ~1 em 500 pessoas nos EUA; frequentemente com obstrução dinâmica da VSVE. Eco e RM são os exames diagnósticos preferidos.
- Descompensação pode ocorrer com anestesia, taquicardia, redução de pré ou pós-carga, manifestando-se como IC, IAM, isquemia, arritmia ou morte súbita.
- Monitorização invasiva (linha arterial/PVC) e/ou débito cardíaco podem ser considerados; ETE na instabilidade para avaliar obstrução.
- Maior risco: mais comorbidade, cirurgia de maior risco, hipotensão intraoperatória prolongada, maior obstrução provocável. Pode ser razoável encaminhar a centros de alto volume; cuidados intensivos pós-op podem ser indicados na CMH obstrutiva conhecida.
Formal: apenas uma recomendação (3: dano) — evitar gatilhos de obstrução. Fisiologia de suporte: “cheio, lento e contraído com força moderada” — volume adequado, FC baixa, pós-carga mantida, sem inotrópico.
Dobutamina/inotrópicos para hipotensão; diurese agressiva; vasodilatadores; permitir taquicardia. Lembre: eco com dobutamina é contraindicado com obstrução significativa da VSVE (Tabela 7).
❓ Pergunta-chavePaciente com CMH obstrutiva fica hipotenso na indução. Primeira linha?Ver resposta
Resposta: volume e alfa-agonista (fenilefrina ou vasopressina); evitar beta-agonistas. Considerar eco intraoperatório; betabloqueio IV em selecionados.
💡 Inotrópico positivo na CMH obstrutiva é Classe 3: dano.
❓ Pergunta-chaveSuspender o betabloqueador na véspera da cirurgia em CMH?Ver resposta
Resposta: não. Tabela 9: continuar betabloqueadores e/ou BCC não di-hidropiridínicos sem interrupção.
💡 Retirar o inotropismo negativo favorece obstrução e taquicardia.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 6.3.1, Tabela 9; Tabela 7.
15Hipertensão pulmonar (HP)
Em pacientes em doses estáveis de terapias-alvo para HAP* submetidos a CNC, recomenda-se continuar esses agentes para reduzir MACE perioperatório.
*Ex.: moduladores da via do óxido nítrico, antagonistas do receptor de endotelina, agonistas da via da prostaciclina, ou combinações.
Em pacientes com HP grave† submetidos a CNC de risco elevado, é razoável o encaminhamento ou a consulta a um centro especializado em HP, capaz de apoiar a avaliação de risco, a otimização e o manejo pós-operatório (considerando cuidados intensivos após a CNC), para reduzir complicações cardiopulmonares perioperatórias.
Em pacientes com HP grave† submetidos a CNC de risco elevado, é razoável a monitorização hemodinâmica invasiva para orientar os cuidados intra e pós-operatórios.
Em pacientes com HP pré-capilar submetidos a CNC de risco elevado, a administração perioperatória de vasodilatadores pulmonares inalatórios de curta ação (ex.: óxido nítrico, prostaciclinas aerossolizadas) pode ser razoável para reduzir a pós-carga elevada do VD e prevenir a IC direita aguda descompensada.
- HP pré-capilar (cateterismo direito): PAPm >20 mmHg, POAP <15 mmHg e RVP >2 UW.
- HP grave (componente pré-capilar grave): PAPm >40 mmHg, RVP >5 UW, ou disfunção significativa do VD ao eco (razão diâmetro diastólico VD/VE >0,8 ou disfunção de VD moderada/grave), somada a dados clínicos, de exercício e biomarcadores.
- Grupos 1 (HAP), 3 (doença pulmonar) e 4 (tromboembólica crônica) têm alto risco de HP grave se não tratados.
- HP (qualquer grupo) aumenta MACE. 18 milhões de internações: HP → +43% de morte/IAM/AVC e ~2× choque cardiogênico e PCR; grupo 1 → 2,5× MACE e 5× choque.
- HAP em 11 centros especializados: complicações maiores 6,1%, mortalidade 3,5%; 15% em emergência vs 2% em não emergência.
- Preditores de mortalidade: NYHA ≥II, PSVD/PAS sistêmica ≥0,66, uso intraoperatório de vasopressor.
- Revisar cateterismo direito recente e eco (função do VD). Cateter venoso central conforme risco; cateter de artéria pulmonar tem benefício diagnóstico, mas riscos e interpretação incorreta limitam o uso rotineiro.
- IC direita aguda por HP: ECMO venoarterial é o suporte de escolha; evitar dispositivo de assistência de VD.
- Evitar hipóxia, hipercapnia e acidose (agravam a RVP). Vasodilatador inalatório reduz a pós-carga do VD sem baixar a PA sistêmica; não respondedores conhecidos podem não se beneficiar.
Cirurgia de emergência; HP grave; grupo 1 (HAP); disfunção de VD moderada/grave; NYHA ≥II; relação PSVD/PAS ≥0,66; necessidade de vasopressor — planejar em centro com experiência em HP e capacidade de ECMO.
❓ Pergunta-chavePaciente com HAP em bosentana + sildenafila: suspender antes da cirurgia?Ver resposta
Resposta: não. Continuar terapias-alvo em dose estável 1 C-LD.
💡 HAP bem controlada tem menor morbimortalidade perioperatória.
❓ Pergunta-chaveQuais parâmetros definem HP grave?Ver resposta
Resposta: PAPm >40 mmHg, RVP >5 UW, ou disfunção significativa do VD ao eco (VD/VE >0,8 ou disfunção moderada/grave).
💡 HP grave + CNC de risco elevado = centro de HP (2a) + monitorização invasiva (2a).
❓ Pergunta-chaveSe ocorrer IC direita refratária por HP no perioperatório, qual suporte mecânico a diretriz favorece?Ver resposta
Resposta: ECMO venoarterial, evitando dispositivo de assistência de VD (conforme declaração científica da AHA citada).
💡 Por isso esses pacientes devem ser operados onde ECMO é possível.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 6.3.2.
16Valvopatias
Para definições completas de gravidade, a diretriz remete à diretriz ACC/AHA de valvopatias (2020).
Estenose aórtica (EAo) — a mais importante
Pacientes com EAo grave devem ser avaliados quanto à necessidade de intervenção valvar aórtica antes da CNC eletiva para reduzir o risco perioperatório.
Em pacientes com suspeita de EAo moderada ou grave que serão submetidos a CNC de risco elevado, recomenda-se ecocardiograma pré-operatório antes da CNC eletiva para orientar o manejo perioperatório.
Modificada da diretriz ACC/AHA 2020 de valvopatias (vale também para a recomendação anterior).
Em pacientes assintomáticos com EAo moderada ou grave e função sistólica do VE normal em ecocardiograma realizado no último ano, é razoável prosseguir com CNC eletiva de baixo risco.
Área valvar <1,0 cm², gradiente médio ≥40 mmHg ou Vmax ≥4,0 m/s (inclui EAo de baixo fluxo/baixo gradiente pelas diretrizes). Sintomas: dispneia aos esforços, angina, IC, síncope ou pré-síncope.
- Risco maior em sintomáticos, VE reduzido, EAo mais grave, HP concomitante e cirurgia urgente/emergência.
- Eco em até 1 ano antes de CNC de risco elevado (gravidade, função de VE/VD, outras valvas, PSAP).
- EAo grave tratada antes da CNC: 0 óbitos em 161 vs 4,3% de mortalidade em 30 dias nos não tratados; MACE 5,4% vs 20,5%. Sintomáticos não tratados tiveram os piores desfechos.
- TAVI ou troca cirúrgica antes da CNC eletiva reduz risco quando há critério de intervenção. Valvuloplastia por balão pode ser ponte em CNC urgente de risco elevado (dados conflitantes).
- Assintomática grave com FEVE ≥50% pode fazer CNC de baixo risco, sobretudo sem DAC grave; CNC de alto risco pode exigir avaliação adicional (Figura 2).
- Monitorar de perto: evitar hipotensão, hipertensão excessiva, taquicardia, desidratação e hipervolemia; considerar monitorização invasiva e/ou ETE; heart team se instabilidade, grandes variações de volume ou alto risco de sangramento. Centros capazes de intervenção valvar.

Leitura em texto: EAo grave* com indicação de CNC eletiva ou tempo-sensível → discussão em equipe multidisciplinar (cardiologia, anestesiologia e cirurgia). EAo grave sintomática† ou assintomática com FEVE <50% → candidato a troca valvar aórtica? Sim → avaliar troca valvar antes de CNC eletiva de risco elevado 1, com decisão em equipe, centrada no paciente, sobre a modalidade (TAVI ou troca cirúrgica). Não → considerar manejo não cirúrgico, alternativas minimamente invasivas, valvoplastia aórtica por balão antes da CNC, cuidados paliativos ou prosseguir com a cirurgia de risco elevado após decisão compartilhada. EAo assintomática com FEVE ≥50% → cirurgia de risco elevado‡? Não → é razoável prosseguir com CNC eletiva de baixo risco 2a. Sim → é possível adiar a CNC? Sim → candidato a troca valvar (como acima); Não → decisão em equipe, centrada no paciente, sobre como prosseguir.
*EAo grave: área valvar aórtica <1,0 cm², gradiente médio ≥40 mmHg ou velocidade de pico (Vmáx) ≥4,0 m/s. †Sintomas de dispneia aos esforços, angina, IC, síncope ou pré-síncope. ‡Inclui risco elevado de instabilidade hemodinâmica, grandes variações de volume ou sangramento maior. As cores correspondem à classe de recomendação (Tabela 3). Modificada de Sorrentino et al.
Estenose mitral (EM)
Pacientes com estenose mitral (EM) grave devem ser avaliados quanto à necessidade de intervenção valvar mitral antes da CNC eletiva.
Em pacientes com EM grave que não podem ser submetidos a intervenção valvar mitral antes da CNC, é razoável a monitorização hemodinâmica invasiva perioperatória para orientar o manejo e reduzir o risco de complicações cardiovasculares.
Em pacientes com EM grave que não podem ser submetidos a intervenção valvar mitral antes da CNC, o controle perioperatório da frequência cardíaca (ex.: betabloqueadores, BCC, ivabradina, digoxina) pode ser considerado para prolongar o tempo de enchimento diastólico e reduzir complicações cardiovasculares perioperatórias.
Critérios de intervenção: EM reumática grave sintomática (NYHA ≥II) ou assintomática com PSAP >50 mmHg (ou FA nova). Se indicada e factível, adiar CNC eletiva de risco elevado. Se não for possível: FC normal-baixa, RVS normal-alta, pré-carga adequada e controle de ritmo quando aplicável; evitar hipóxia/hipercapnia; recuperação em UTI ou observação prolongada.
Insuficiência aórtica (IAo) e mitral (IM) crônicas
Em pacientes com suspeita de regurgitação valvar moderada ou grave, recomenda-se ecocardiograma pré-operatório antes da CNC eletiva para orientar o manejo perioperatório.
Em pacientes com valvopatia que preenchem critérios de intervenção valvar, com base no quadro clínico e na gravidade da regurgitação, a necessidade de intervenção deve ser considerada antes de CNC eletiva de risco elevado, para reduzir o risco perioperatório.
Em pacientes assintomáticos com insuficiência mitral (IM) moderada ou grave, função sistólica do VE normal e PSAP estimada <50 mmHg, é razoável realizar a CNC eletiva.
Em pacientes assintomáticos com insuficiência aórtica (IAo) moderada ou grave e função sistólica do VE normal (FEVE >55%), é razoável realizar a CNC eletiva.
As quatro recomendações sobre regurgitação foram modificadas da diretriz ACC/AHA 2020 de valvopatias.
Eco dos últimos 12 meses pode ser aceitável se sintomas e capacidade funcional não mudaram. IM: evitar aumento de pós-carga e bradicardia, manter pré-carga; monitorização intensiva até 24–72 h. TEER pode ser considerada antes da CNC em IM com indicação de reparo sem candidatura cirúrgica. IAo: evitar bradicardia; atenção à volemia; FEVE reduzida e creatinina >2 mg/dL associam-se a mortalidade.
Após TAVI e TEER
Em pacientes submetidos a TAVI bem-sucedida, é razoável realizar a CNC precocemente*, conforme a indicação clínica.
*A evidência apoia a segurança da CNC nos primeiros 30 dias após a TAVI, se indicada.
Em pacientes submetidos a reparo mitral transcateter borda a borda (TEER), é razoável realizar a CNC após o sucesso da intervenção, conforme a indicação clínica.
Após TAVI, mismatch prótese-paciente e leak paravalvar associaram-se a piores desfechos; o AAS deve idealmente ser mantido no perioperatório. Após TEER: CNC precoce (ex.: 30 dias) se a IM residual não for mais grave; não há recomendações baseadas em evidência sobre antitrombóticos pós-TEER (DAPT com AAS + clopidogrel até 6 meses é comum em ritmo sinusal).
| Lesão | Eco | Intervir antes? | Pode prosseguir quando… | Hemodinâmica |
|---|---|---|---|---|
| EAo | Suspeita mod/grave + risco elevado (1, C-EO); ≤1 ano | Grave: avaliar intervenção (1, C-LD); BAV como ponte em urgente | Assintomática, VE normal, eco ≤1 ano, cirurgia de baixo risco (2a) | Evitar hipotensão, taquicardia, hipovolemia |
| EM | Suspeita → eco | Grave: avaliar intervenção (1, B-NR) | Se não tratável: monitorização invasiva (2a), controle de FC (2b) | FC baixa, RVS alta-normal, pré-carga adequada, ritmo sinusal |
| IM | Suspeita mod/grave (1, C-EO) | Se indicação + CNC risco elevado (1, C-EO); TEER se não candidato | Assintomática, VE normal, PSAP <50 (2a) | Evitar ↑pós-carga e bradicardia |
| IAo | Suspeita mod/grave (1, C-EO) | Se indicação + CNC risco elevado (1, C-EO) | Assintomática, FEVE >55% (2a) | Evitar bradicardia; volemia |
| Pós-TAVI | — | — | Precoce, ≤30 dias seguro (2a, B-NR) | Manter AAS |
| Pós-TEER | — | — | Após sucesso (2a, C-EO) | IM residual não grave |
❓ Pergunta-chaveEAo grave assintomática, FEVE 60%, eco de 8 meses, para facectomia/hérnia de baixo risco: operar?Ver resposta
Resposta: é razoável prosseguir 2a C-LD, com monitorização cuidadosa.
💡 Se a CNC fosse de alto risco, avaliação adicional/heart team (Figura 2).
❓ Pergunta-chaveEAo grave sintomática precisa de cirurgia urgente de risco elevado. Opção de ponte?Ver resposta
Resposta: valvuloplastia aórtica por balão pode ser considerada como estratégia-ponte (texto de suporte; dados de desfecho conflitantes).
💡 Idealmente em centro com capacidade de intervenção valvar.
❓ Pergunta-chaveTAVI há 3 semanas com bom resultado; cirurgia de cólon indicada. Esperar?Ver resposta
Resposta: não é necessário esperar: CNC precoce após TAVI bem-sucedida é razoável 2a B-NR; evidência apoia segurança em até 30 dias.
💡 Mantenha o AAS se possível.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.4.1 (Figura 2), 6.4.2, 6.4.3, 6.4.4.
17Fibrilação atrial
Em pacientes com FA de resposta ventricular rápida identificada no contexto da CNC, é razoável tratar os potenciais desencadeantes da FA e da resposta ventricular rápida (ex.: sepse, anemia, dor).
Em pacientes com FA de início recente identificada no contexto da CNC, iniciar anticoagulação no pós-operatório pode ser benéfico, após ponderar os riscos concorrentes de tromboembolismo e de sangramento perioperatório.
Em pacientes com FA de início recente identificada no contexto da CNC, recomenda-se seguimento ambulatorial para estratificação do risco tromboembólico e vigilância da FA, dado o alto risco de recorrência.
Adaptadas da diretriz ACC/AHA/ACCP/HRS 2023 de FA.
- FA prévia estável: em geral nenhuma mudança além da interrupção da ACO; FA com mau controle de FC deve ser otimizada antes.
- Gatilhos: dor, anemia, distúrbios eletrolíticos, desvios de volume, sepse.
- Controle de FC: alvo <110 bpm em estáveis; betabloqueadores ou BCC; digoxina como adjuvante ou se outros contraindicados.
- Controle de ritmo: se refratária ao controle de FC, cardioversão elétrica sincronizada ou farmacológica; excluir trombo de apêndice atrial se FA >48 h ou alto risco tromboembólico. Instável com hipotensão → cardioversão elétrica sincronizada.
- FA pós-operatória após CNC: +62% AVC precoce, +44% mortalidade precoce; +37% AVC e +37% mortalidade a longo prazo. Associação com AVC maior na CNC (HR 2,00) que na cirurgia cardíaca (HR 1,20).
- Anticoagulação guiada por CHA₂DS₂-VASc e risco de sangramento; ACO iniciada ≤30 dias pós-alta → −48% eventos tromboembólicos (registro dinamarquês). ASPIRE-AF em andamento.
- Recorrência de FA de 39% em 5 anos; seguimento ambulatorial em 3 a 6 meses; monitorização prolongada (Holter 1–2 semanas, event monitor 30 dias, monitor implantável) em selecionados.
Gatilhos (dor, anemia, eletrólitos, volume, sepse) · Anticoagulação avaliada (CHA₂DS₂-VASc × sangramento) · Taxa <110 bpm (ou ritmo se refratária/instável) · Outpatient: seguimento em 3–6 meses.
❓ Pergunta-chaveFA nova no 2º dia pós-op que reverteu espontaneamente: pode ser ignorada?Ver resposta
Resposta: não. Seguimento ambulatorial é 1 C-LD pela alta recorrência (39% em 5 anos) e risco de AVC comparável ao da FA não cirúrgica.
💡 Paroxística pós-op ≠ benigna.
❓ Pergunta-chaveFA rápida com hipotensão no pós-operatório: primeira conduta?Ver resposta
Resposta: cardioversão elétrica sincronizada (FA instável com RVR e hipotensão), além de tratar gatilhos.
💡 Em estáveis: gatilhos + controle de FC <110 bpm.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 6.5.
18Marca-passo e CDI (DCEI)
Pacientes com dispositivo cardíaco eletrônico implantável (DCEI) que serão submetidos a CNC eletiva devem ter um plano de manejo elaborado antes da cirurgia se houver previsão de interferência eletromagnética (IEM), incluindo a identificação do tipo de dispositivo (ex.: marca-passo, cardiodesfibrilador implantável [CDI], monitor implantável), do fabricante e do modelo.
Pacientes dependentes de marca-passo submetidos a cirurgias acima da cicatriz umbilical, com previsão de IEM, devem ter o marca-passo reprogramado ou um ímã posicionado sobre o gerador para obter modo assíncrono e evitar a inibição da estimulação.
Pacientes dependentes de marca-passo com CDI transvenoso, submetidos a cirurgia acima da cicatriz umbilical com previsão de IEM, devem ter o dispositivo reprogramado*; se o paciente não for dependente de marca-passo, pode-se usar reprogramação ou ímã sobre o gerador para inibir as terapias antitaquicardia ou choques inapropriados.
*Em pacientes dependentes de marca-passo com CDI, as terapias antitaquicardia devem ser desativadas e o dispositivo deve ser reprogramado para modo assíncrono, para evitar a inibição da estimulação.
Pacientes com marca-passo ou CDI reprogramado para estimulação assíncrona, ou com as terapias antitaquicardia desligadas antes da cirurgia, devem ter a função do dispositivo restaurada no pós-operatório, antes da alta hospitalar.
Pacientes com marca-passo sem eletrodo (leadless) dependentes de estimulação, submetidos a cirurgias com previsão de IEM acima da cicatriz umbilical, devem ter o marca-passo reprogramado para modo assíncrono.
Em pacientes com CDI subcutâneo submetidos a cirurgia não cardíaca e não torácica com previsão de IEM acima da região inguinal, é razoável reprogramar o dispositivo ou usar ímã para desativar temporariamente as terapias antitaquicardia.

Leitura em texto: DCEI transvenoso → IEM* acima da cicatriz umbilical? Não → não é necessário reprogramar nem aplicar ímã; manter ímã disponível 1. Sim, marca-passo: paciente dependente? Sim → usar ímã ou reprogramar para modo assíncrono 1; Não → não é necessário reprogramar nem aplicar ímã; manter ímã disponível; considerar desativar a função de resposta em frequência 1. Sim, CDI: paciente dependente de marca-passo? Sim → reprogramar para modo assíncrono e desativar as terapias do CDI 1; Não → usar ímã ou reprogramar para desativar as terapias antitaquicardia 1.
*A IEM é considerada risco significativo quando a fonte está a <15 cm do gerador do DCEI. Estimulação e/ou desfibrilação externas devem estar disponíveis. Os clínicos devem confirmar que a resposta ao ímã está habilitada e conhecer a resposta individual do dispositivo. Considerar consultar a equipe de DCEI em dispositivos de ressincronização cardíaca. As cores correspondem à classe de recomendação (Tabela 3).

Leitura em texto: Marca-passo sem eletrodo (leadless)* → IEM acima da cicatriz umbilical? Não → nenhuma intervenção necessária. Sim → dependente de marca-passo? Sim → reprogramar para modo assíncrono 1; Não → nenhuma intervenção necessária. CDI subcutâneo† → IEM acima da região inguinal? Sim → programar as terapias como desligadas (a figura indica “1”); Não → nenhuma intervenção necessária; manter ímã disponível (a figura indica “1”).
*No marca-passo sem eletrodo, o ímã não força estimulação assíncrona. †O CDI subcutâneo atualmente não realiza estimulação. Se usado, o ímã deve ser fixado com fita adesiva. Se o paciente estiver em posição diferente da supina, ou se for prevista IEM extensa em cirurgia acima do diafragma, considerar reprogramação. O ímã posicionado sobre o CDI subcutâneo emite um bipe sincronizado com a onda R, indicando posicionamento correto; se o tom não for audível, é necessário reprogramar. As cores correspondem à classe de recomendação (Tabela 3).
Nota de fidelidade: na Figura 4, os quadros do CDI subcutâneo aparecem em verde (classe 1), enquanto a recomendação formal correspondente da seção 6.6 é Classe 2a C-LD. A divergência está no documento original e foi mantida.
- Ímã em marca-passo: estimulação assíncrona a 85–100 bpm com bateria adequada (cai com depleção); confirmar VOO/DOO. Alguns forçam assíncrono por apenas 10 batimentos → reprogramar.
- Ímã pode falhar em obesos, prona ou sem contato contínuo.
- Interrogações: a cada 12 meses (marca-passo) e 6 meses (CDI).
- Placa dispersiva longe do gerador e do coração; trajeto da corrente não deve cruzar gerador/eletrodos. IEM mais comum em monopolar e no modo coagulação.
- Desativar sensor de frequência na litotripsia e ECT. Em emergência com IEM: usar ímã e identificar o dispositivo o quanto antes.
- Mesmo sem IEM, pode ser desejável evitar choque em cirurgias intracranianas, espinhais ou oculares. Consultar a equipe de DCEI para ressincronizadores.
- Morte súbita já foi relatada por falha em reativar terapias.
❓ Pergunta-chavePaciente dependente de marca-passo com CDI transvenoso, colecistectomia com bisturi monopolar: basta um ímã?Ver resposta
Resposta: não. Deve-se reprogramar (terapias desligadas + modo assíncrono) 1 B-NR; o ímã não força estimulação assíncrona no CDI.
💡 Ímã em CDI só suspende terapias antitaquicardia.
❓ Pergunta-chaveCirurgia de joelho em portador de marca-passo: precisa reprogramar?Ver resposta
Resposta: geralmente não: bisturi abaixo do umbigo raramente causa IEM em transvenosos. Mas com placa dispersiva sob o corpo pode haver IEM → ímã ou reprogramação.
💡 O plano pré-op (1, B-NR) sempre é necessário se houver IEM prevista.
❓ Pergunta-chaveQuando restaurar a programação de um CDI desligado?Ver resposta
Resposta: no pós-operatório, antes da alta hospitalar/ambiente sem monitorização 1 B-NR; com pás no paciente enquanto desativado.
💡 Transmissão remota na alta ajuda a confirmar.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 6.6, Figuras 3 e 4.
19💊 Terapia antiplaquetária
Após ICP
Em pacientes com ICP prévia submetidos a CNC, recomenda-se manter o ácido acetilsalicílico (AAS)* (75–100 mg), se possível, para reduzir o risco de eventos cardíacos.
*A monoterapia com inibidor do P2Y12 pode ser considerada se o risco de sangramento cirúrgico for aceitável ou se o AAS não for tolerado.
Em pacientes com DAC que necessitam de CNC tempo-sensível nos primeiros 30 dias após ICP com BMS ou nos primeiros 3 meses após ICP com DES, a DAPT deve ser mantida, a menos que o risco de sangramento supere o benefício da prevenção da trombose de stent.
Em pacientes com ICP prévia nos quais a monoterapia com anticoagulante oral (ACO) precisa ser interrompida antes da CNC, o AAS deve ser utilizado em substituição, quando factível, no período perioperatório, até que a ACO possa ser reiniciada com segurança.
Em pacientes selecionados após ICP, com alto risco trombótico, a terapia de ponte perioperatória com antiplaquetário intravenoso pode ser considerada <6 meses após DES ou <30 dias após BMS, se a CNC não puder ser adiada.
Sem ICP prévia
Em pacientes com DCC sem ICP prévia submetidos a CNC eletiva, pode ser razoável manter o AAS em pacientes selecionados, quando o risco de eventos cardíacos superar o risco de sangramento.
Em pacientes com DAC sem ICP prévia submetidos a CNC eletiva não carotídea, o início rotineiro de AAS não traz benefício.
| Antiplaquetário | Tempo mínimo entre a interrupção do fármaco e a recuperação da função plaquetária |
|---|---|
| Ácido acetilsalicílico | 4 d |
| Clopidogrel | 5–7 d |
| Prasugrel | 7–10 d |
| Ticagrelor | 3–5 d |
Os tempos mínimos entre a interrupção do fármaco e a cirurgia não cardíaca devem ser orientados pelos dados de farmacocinética, pela recuperação da função plaquetária após a retirada do fármaco e pelas informações de prescrição específicas de cada fármaco aprovadas pela FDA.
| Fármaco | Quando manter | Quando interromper | Intervalo pré-op (Tabela 12) | Reinício |
|---|---|---|---|---|
| AAS | ICP prévia (1, B-R); DCC sem ICP em selecionados (2b); após TAVI (texto); ICP + ACO suspensa: substituir por AAS (1) | Prevenção primária (pode dispensar consenso multidisciplinar); DAC sem ICP em geral (POISE-2) | 4 d | Diretriz não estabelece prazo único; conforme hemostasia/equipe |
| Clopidogrel | <30 d BMS / <3 m DES em CNC tempo-sensível (DAPT, 1) | Após janelas pós-PCI (≥6 m DCC, ≥12 m SCA; ≥3 m tempo-sensível) | 5–7 d | Idem |
| Prasugrel | Idem | Idem | 7–10 d | Idem |
| Ticagrelor | Idem | Idem | 3–5 d | Idem |
- AAS em portadores de stent: menos morte/IAM (redução absoluta 5,5%) sem aumento de sangramento maior. Se a DAPT precisa ser interrompida, manter AAS sempre que possível.
- POISE-2 (10.010 pacientes sem distinção de ICP): AAS perioperatório não reduziu morte/IAM (7,0% vs 7,1%) e aumentou sangramento maior em 23%. Estrato de uso crônico: continuar vs interromper sem diferença.
- Ponte IV: cangrelor estudado no BRIDGE (CRM); MONET BRIDGE em andamento na CNC. Sem dados estabelecidos para inibidores de GP IIb/IIIa como ponte.
- ICP + ACO: após a CNC, suspender o AAS e reiniciar a ACO em monoterapia conforme o risco de sangramento permitir.
- Ácido tranexâmico (POISE-3): menos sangramento; benefício líquido depende do paciente (útil no alto risco de sangramento, potencialmente prejudicial no alto risco CV).
≤30 dias de BMS/DES, <3 meses de DES, ICP por SCA, ICP complexa. Nelas, qualquer interrupção de antiplaquetário exige decisão multidisciplinar (1, B-NR).
❓ Pergunta-chaveDES há 2 anos, em AAS isolado, para prostatectomia: suspender o AAS?Ver resposta
Resposta: recomenda-se continuar o AAS, se possível 1 B-R.
💡 Se o sangramento cirúrgico tornar o AAS inaceitável, a decisão é multidisciplinar.
❓ Pergunta-chaveDAC estável sem stent, não usa AAS: iniciar AAS antes de cirurgia abdominal?Ver resposta
Resposta: não. Iniciar AAS de rotina em CNC não carotídea 3: sem benefício B-R.
💡 Exceção textual: endarterectomia carotídea não está incluída nessa recomendação.
❓ Pergunta-chaveStent há 3 anos, hoje em rivaroxabana isolada por FA. O que fazer ao suspender a rivaroxabana?Ver resposta
Resposta: substituir por AAS no perioperatório, quando factível, até reiniciar a ACO 1 B-NR.
💡 Depois, suspender o AAS e voltar à ACO em monoterapia.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 7.5 (recomendações 7–12), Tabela 12.
20💊 Anticoagulantes orais e terapia de ponte
Em pacientes com DCV em uso de ACO que necessitam de CNC eletiva, recomenda-se abordagem multidisciplinar para a interrupção baseada em tempo* (Tabelas 13 e 14), equilibrando os riscos concorrentes de tromboembolismo e de sangramento perioperatório.
*O momento da interrupção pré-operatória baseia-se em fatores do paciente (ex.: risco trombótico, idade, sexo, peso corporal, depuração renal), no risco de sangramento cirúrgico e em fatores do fármaco (ex.: farmacocinética, posologia, interações medicamentosas).
Em pacientes com DCV e alto risco trombótico (Tabela 14) submetidos a CNC em que seja necessário interromper o antagonista da vitamina K (AVK), a terapia de ponte pré-operatória com heparina parenteral pode ser eficaz para reduzir o risco tromboembólico.
Na maioria dos pacientes com DCV submetidos a CNC eletiva em que a interrupção da ACO é necessária, a terapia de ponte periprocedimento de rotina não é recomendada, pelo aumento do risco de sangramento.
Em pacientes com interrupção pré-operatória da ACO, é razoável retomá-la após a obtenção de hemostasia.
Na maioria: NÃO (Classe 3: dano, C-LD)
Em alto risco trombótico selecionado em uso de AVK: CONSIDERAR (Classe 2a, C-LD)
DOAC: interrupção simples, sem terapia de ponte (PAUSE).
| DOAC | Risco de sangramento do procedimento | D−6 | D−5 | D−4 | D−3 | D−2 | D−1 | D0 | D+1 | D+2 | D+3 | D+4 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Apixabana, edoxabana, rivaroxabana | Alto | * | * | * | * | † | † | † | † | † | * | * |
| Baixo/moderado | * | * | * | * | * | † | † | * | * | * | * | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | |
| Apixabana, edoxabana, rivaroxabana com disfunção renal (ClCr <30 mL/min) | Alto | * | * | * | † | † | † | † | † | † | * | * |
| Baixo/moderado | * | * | * | * | † | † | † | * | * | * | * | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | |
| Dabigatrana, ClCr ≥50 mL/min | Alto | * | * | * | * | † | † | † | † | † | * | * |
| Baixo/moderado | * | * | * | * | * | † | † | * | * | * | * | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | |
| Dabigatrana, ClCr <50 mL/min | Alto | * | * | † | † | † | † | † | † | † | * | * |
| Baixo/moderado | * | * | * | * | † | † | † | * | * | * | * | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * |
| AVK | Risco de sangramento do procedimento | D−6 | D−5 | D−4 | D−3 | D−2 | D−1 | D0 | D+1 | D+2 | D+3 | D+4 |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Varfarina com risco trombótico baixo/moderado | Alto | * | † | † | † | † | † | † | * | * | * | * |
| Baixo/moderado | * | † | † | † | † | † | † | * | * | * | * | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | |
| Varfarina com risco trombótico alto | Alto | * | † | † | ‡ | ‡ | ‡ | † | * | * | *# | *# |
| Baixo/moderado | * | † | † | ‡ | ‡ | ‡ | † | * | *# | *# | *# | |
| Mínimo | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * | * |
O manejo do risco de sangramento perioperatório e o esquema de DOAC ou AVK devem incorporar decisão em equipe, especialmente em pacientes de alto risco trombótico ou submetidos a procedimentos com maior risco de desfecho adverso caso ocorra sangramento (ex.: anestesia neuraxial). Risco de sangramento mínimo = risco de sangramento maior em 30 dias de 0% (ex.: cirurgia de catarata, procedimentos dentários/dermatológicos menores). Risco baixo/moderado = risco de sangramento maior em 30 dias <2% (ex.: procedimento dentário complexo, gastrointestinal, cirurgia de mama, procedimentos com agulhas de grosso calibre). Risco alto = risco de sangramento maior em 30 dias ≥2%.
*Administrar DOAC ou AVK.
†Suspender DOAC ou AVK.
‡Durante a suspensão do AVK em pacientes selecionados de risco trombótico muito alto, terapia de ponte pré-operatória com heparina parenteral quando o INR estiver abaixo da faixa terapêutica desejada.
#A retomada da ponte pós-operatória com HBPM, em dose plena ou profilática, até que o INR esteja na faixa terapêutica é uma decisão de equipe que pondera riscos e benefícios.
ClCr indica clearance de creatinina; DOAC, anticoagulantes orais diretos; INR, razão normalizada internacional; HBPM, heparina de baixo peso molecular; AVK, antagonista da vitamina K.
Procedimentos com maior risco de sangramento (ex.: anestesia neuraxial) devem ser realizados com interrupção completa da ACO. Quando se deseja efeito mínimo do fármaco, os anticoagulantes devem ser suspensos por ≥5 meias-vidas (Tabela 13): ≥3 dias para os inibidores do fator Xa (rivaroxabana, apixabana, edoxabana) e ≥4 dias para a dabigatrana (5–6 dias se clearance de creatinina <50 mL/min).
| Categoria de risco | Tromboembolismo venoso | Fibrilação atrial | Valva mecânica | Outras indicações de anticoagulação |
|---|---|---|---|---|
| Baixo | TEV >12 meses | CHA₂DS₂-VASc 1–4 (sem história prévia de AVC) | Prótese aórtica mecânica de duplo folheto sem fatores de risco maiores para AVC* | — |
| Moderado | TEV ≤3–12 meses TEV recorrente | CHA₂DS₂-VASc 5–6 | Prótese aórtica mecânica de duplo folheto com fatores de risco maiores para AVC* | Coagulopatia não grave (heterozigose para fator V de Leiden ou mutação G20210A do gene da protrombina) Câncer ativo |
| Alto | TEV recente (<1 mês ou <3 meses) | CHA₂DS₂-VASc ≥7 (ou 5–6 com AVC ou AIT recente) FA com valvopatia reumática | Prótese mitral mecânica Prótese de bola enjaulada ou de disco basculante Prótese mecânica em qualquer posição com AVC ou AIT recente (<3 meses) | AVC cardioembólico recente (<3 meses)† Câncer ativo associado a alto risco de TEV Trombo no VE (nos últimos 3 meses) Trombofilia grave† Anticorpos antifosfolípides |
Adaptada de Douketis et al.
*Fatores de risco maiores para AVC incluem FA, múltiplos AVC/AIT prévios (≥3 meses), AVC perioperatório prévio ou trombose valvar prévia.
†Deficiência de proteína C, proteína S ou antitrombina; homozigose para fator V de Leiden ou para a mutação G20210A do gene da protrombina, ou dupla heterozigose; múltiplas trombofilias.
FA indica fibrilação atrial; AIT, ataque isquêmico transitório; AVC, acidente vascular cerebral; CHA₂DS₂-VASc, insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão, idade ≥75 anos (2 pontos), diabetes mellitus, AVC/AIT/tromboembolismo prévio (2 pontos), doença vascular, idade 65–74 anos, sexo; TEV, tromboembolismo venoso; VE, ventrículo esquerdo.
| Varfarina | Apixabana | Rivaroxabana | Edoxabana | Dabigatrana | |
|---|---|---|---|---|---|
| Mecanismo de ação | VKORC1 (fatores dependentes da vitamina K) | Inibidor do fator Xa | Inibidor do fator Xa | Inibidor do fator Xa | Inibidor do fator IIa (inibidor direto da trombina) |
| Biodisponibilidade | >95% | 50% | 100% (66% sem alimento) | 62% | 3%–7% |
| Tempo até a Cmáx | 2–6 h | 3–4 h | 2–4 h | 1–2 h | 1,25–3 h |
| Meia-vida plasmática (t1/2) | 36–48 h | 9–14 h | 6–9 h (11–13 h em idosos) | 10–14 h | 12–15 h |
| Duração de ação | ~5 d (além da normalização do INR) | 24 h | 24 h | 24 h | 24 h |
| Depuração renal (%) | 0% | 27% | 33% | 37%–59% | 85% (parcialmente dialisável) |
| Interação medicamentosa | — | CYP p450 3A4, glicoproteína P | CYP 450 3A4/2J2, glicoproteína P | CYP 450 3A4 (<5%), glicoproteína P | Glicoproteína P |
| Parâmetros de coagulação alterados | — | TP, TTPa, TCA | TP, TTPa, TCA | TP, TTPa, TCA | TTPa, TCA, TP/INR, TTd |
| Monitorização da presença de efeito do fármaco | TP/INR | Anti-Xa* (DOAC) | Anti-Xa* (DOAC) | Anti-Xa* (DOAC) | TCE (DOAC) |
| Antídoto/reversão | Vitamina K, CCP-4F, PFC | CCP-4F, andexanete alfa | CCP-4F, andexanete alfa | CCP-4F, andexanete alfa | CCP-4F, idarucizumabe |
“—” indica célula vazia no original.
*A avaliação quantitativa requer calibradores específicos para cada fármaco. Sem níveis terapêuticos definidos, o uso pode indicar efeito persistente do fármaco.
CCP-4F indica concentrado de complexo protrombínico de 4 fatores; TCA, tempo de coagulação ativado; anti-Xa, ensaio de atividade anticoagulante; TTPa, tempo de tromboplastina parcial ativada; CYP, citocromo; DOAC, anticoagulante oral direto; TTd, tempo de trombina diluído; TCE, tempo de coagulação de ecarina; PFC, plasma fresco congelado; INR, razão normalizada internacional; TP, tempo de protrombina.
- Cirurgias de sangramento mínimo podem ser feitas sem interromper a ACO.
- BRIDGE (FA em AVK): ponte com HBPM não inferior ao placebo para tromboembolismo, mas com mais sangramento maior. PERIOP-2: terapia de ponte pós-op sem redução de tromboembolismo, com mais sangramento.
- Bridging deve ser limitado a pacientes de risco trombótico muito alto (ex.: valva mitral mecânica) em AVK, considerando HAS-BLED, sangramento prévio e risco cirúrgico.
- DOAC: interrupção simples (PAUSE, 3.007 pacientes com FA) com baixo sangramento e tromboembolismo; ponte em pacientes com DOAC aumentou sangramento sem reduzir eventos.
- Retomada: AVK 12–24 h pós-op após hemostasia (procedimentos de risco baixo/moderado); DOAC atinge efeito em ~2–3 h, pode ser retomado a partir de ~6 h se hemostasia e anticoagulação plena apropriada; no PAUSE, 48–72 h após alto risco de sangramento.
- Em urgência: dosar parâmetros/níveis; sem efeito detectável, reversão pode ser desnecessária.
❓ Pergunta-chaveFA com CHA₂DS₂-VASc 4 em varfarina, para colectomia: fazer ponte com enoxaparina?Ver resposta
Resposta: não. CHA₂DS₂-VASc 1–4 sem AVC = baixo risco (Tabela 14); terapia de ponte de rotina 3: dano C-LD.
💡 BRIDGE: mais sangramento sem menos tromboembolismo.
❓ Pergunta-chaveApixabana, função renal normal, cirurgia de alto risco de sangramento: quando parar e quando voltar?Ver resposta
Resposta: última dose em D−3 (2 dias sem dose antes da cirurgia) e retomada em D+3, pela Tabela 13.
💡 Baixo/moderado risco: pular só D−1 e retomar em D+1.
❓ Pergunta-chavePrótese mitral mecânica em varfarina: terapia de ponte?Ver resposta
Resposta: sim, pode ser eficaz em alto risco trombótico com AVK 2a C-LD; a valva mitral mecânica é o exemplo de risco “muito alto” citado.
💡 Ponte pós-op (dose plena vs profilática) é decisão de equipe conforme sangramento.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 7.6, Tabelas 13, 14 e 15.
21💊 Betabloqueadores
Em pacientes em uso de betabloqueador em dose estável que serão submetidos a CNC, o betabloqueador deve ser mantido durante o período perioperatório, conforme as circunstâncias clínicas.
Em pacientes agendados para CNC eletiva que tenham nova indicação de betabloqueio, o betabloqueador pode ser iniciado com antecedência suficiente em relação à cirurgia (idealmente >7 dias) para permitir avaliar a tolerância e titular a dose, se necessário.
Em pacientes submetidos a CNC sem necessidade imediata de betabloqueador, este não deve ser iniciado no dia da cirurgia, pelo aumento do risco de mortalidade pós-operatória.
- POISE: betabloqueador em alta dose iniciado imediatamente antes da cirurgia em pacientes sem uso prévio → menos eventos isquêmicos, mas mais hipotensão e AVC, com aumento de mortalidade total.
- Observacional: início <7 dias antes → maior mortalidade vs >31 dias; início entre 8 e 30 dias → sem excesso de mortalidade nem benefício.
- Suspender abruptamente betabloqueador crônico é prejudicial.
- Não se recomenda betabloqueador para reduzir risco perioperatório por si só; restringir a indicações claras (ex.: IC, DAC), iniciar ≥1 semana antes, titular conforme hemodinâmica e garantir continuidade na alta.
- Um grupo de ensaios foi excluído (como em 2014) por dados não confiáveis.
Três regras: não pare (1), não comece no dia (3: dano), e se houver indicação real, comece cedo e titule (2b). O objetivo é tratar a doença de base, não “proteger” o coração para a cirurgia.
❓ Pergunta-chavePor que iniciar betabloqueador no dia da cirurgia é prejudicial?Ver resposta
Resposta: no POISE, o início imediato em alta dose reduziu eventos isquêmicos, mas causou hipotensão e AVC, com aumento da mortalidade total 3: dano B-R.
💡 Bradicardia/hipotensão sem titulação são o mecanismo.
❓ Pergunta-chavePaciente com FA e FC 115 em consulta 3 semanas antes de cirurgia eletiva: pode iniciar betabloqueador?Ver resposta
Resposta: sim, há nova indicação; pode ser iniciado com antecedência suficiente (idealmente >7 dias) para avaliar tolerância e titular 2b B-NR.
💡 Três semanas permitem titulação segura.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 7.7.
22💊 IECA/BRA/iSRAA (e outros anti-hipertensivos)
Em pacientes selecionados* em uso crônico de iSRAA para hipertensão, submetidos a CNC de risco elevado, a omissão do fármaco nas 24 h que antecedem a cirurgia pode ser benéfica para limitar a hipotensão intraoperatória.
*Pacientes com PA controlada e submetidos a procedimentos de risco elevado.
Em pacientes em uso crônico de inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona (iSRAA) por ICFEr, é razoável mantê-los no perioperatório.
Modificada da diretriz AHA/ACC/HFSA 2022 de insuficiência cardíaca.
- ECRs: continuar IECA/BRA → mais hipotensão intraoperatória (PAM <60), sem piora de desfechos clínicos (ex.: MINS). PREOP-ACEI: omitir a última dose reduziu hipotensão (PAS <80), sem diferença em MACE. Meta-análise (6.022 pacientes): mais hipotensão, sem diferença em MACE.
- POISE-3: 72% em IECA/BRA; manter o regime na manhã da cirurgia não gerou excesso de eventos.
- ECRs excluíram PA muito alta (PAS >160) ou baixa (<105) e pouco incluíram alto risco/ICFEr. Sem dados perioperatórios para sacubitril/valsartana.
- Abordagem individualizada; não há base para interrupção rotineira em todos.
- Retardo na reintrodução de IECA/BRA associou-se a maior mortalidade em 30 dias (seção 6.2).
Bloqueadores de canal de cálcio e agonistas alfa-2
Dados não apoiam iniciar BCC no perioperatório; continuar pode ser razoável, reconhecendo hipotensão (di-hidropiridínicos) e/ou bradicardia (não di-hidropiridínicos). Na CMH, manter não di-hidropiridínicos.
Em pacientes submetidos a CNC, não se recomenda iniciar clonidina em baixa dose no perioperatório para reduzir o risco cardiovascular.
POISE-2: sem redução de morte/IAM; mais parada cardíaca não fatal, bradicardia e hipotensão. Continuação do uso crônico não foi testada em ECR; suspensão abrupta causa rebote hipertensivo.
A hipotensão intraoperatória associa-se a lesão miocárdica e renal; omitir iSRAA reduz hipotensão, mas não se provou melhora de desfechos. Por isso a omissão é 2b e seletiva (hipertensão controlada + cirurgia de risco elevado), enquanto na ICFEr o peso do benefício crônico favorece continuar (2a).
❓ Pergunta-chaveHipertenso controlado em losartana, cirurgia de risco elevado: suspender?Ver resposta
Resposta: omitir 24 h antes pode ser benéfico para limitar hipotensão 2b B-R.
💡 Reintroduzir assim que clinicamente razoável.
❓ Pergunta-chaveICFEr em enalapril: suspender antes de cirurgia de risco elevado?Ver resposta
Resposta: a continuação é razoável 2a C-EO.
💡 Indicação (HAS vs ICFEr) muda a recomendação.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 7.2, 7.3, 7.4 e 6.2.
23💊 Estatinas
Em pacientes que já utilizam estatina e estão agendados para CNC, recomenda-se manter a estatina para reduzir o risco de MACE.
Em adultos que não utilizam estatina e que preenchem critérios para seu uso, com base na história de DCVA ou no risco estimado em 10 anos, e estão agendados para CNC, recomenda-se iniciar a estatina no perioperatório, com intenção de uso a longo prazo.
- Coorte de 780.591: terapia hipolipemiante perioperatória associada a menor mortalidade cirúrgica.
- Recarga de atorvastatina em usuários crônicos em CNC urgente/emergente: −5,6% MACE em 30 dias (um ECR); benefício de recarga/intensificação ainda incerto.
- Vascular: atorvastatina 20 mg por 45 dias → 8% vs 26% de eventos em 6 meses. Meta-análise 2018 favorável na cirurgia vascular.
- LOAD (648 pacientes sem uso prévio de estatina, atorvastatina 80 mg + 40 mg/dia × 7 dias): sem diferença em MACE de curto prazo.
- Não atrasar a cirurgia para dosar LDL; a CNC é oportunidade para iniciar terapia de longo prazo.
A indicação é a de sempre (prevenção primária/secundária); a cirurgia é o “momento de contato”. O objetivo é o longo prazo, não um efeito protetor agudo (LOAD negativo).
❓ Pergunta-chavePaciente com DAP sem estatina, cirurgia vascular em 10 dias, LDL não disponível: esperar o LDL?Ver resposta
Resposta: não. Iniciar estatina com intenção de longo prazo 1 B-R; a cirurgia não deve ser atrasada pelo LDL.
💡 DCVA estabelecida já é indicação.
❓ Pergunta-chaveSuspender estatina em jejum pré-operatório?Ver resposta
Resposta: não; continuar 1 B-NR.
💡 Garanta a prescrição no pós-operatório e na alta.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 7.1.
24💊 Inibidores de SGLT2
Suspender 3 a 4 dias antes da cirurgia:
| Fármaco | Suspender antes da cirurgia |
|---|---|
| Canagliflozina | ≥3 dias |
| Dapagliflozina | ≥3 dias |
| Empagliflozina | ≥3 dias |
| Ertugliflozina | ≥4 dias |
Em pacientes com IC submetidos a CNC eletiva, os iSGLT2 devem ser suspensos 3 a 4 dias* antes da cirurgia, quando possível, para reduzir o risco de acidose metabólica perioperatória.
*Canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina ≥3 dias; ertugliflozina ≥4 dias antes da cirurgia programada.
Em pacientes agendados para CNC, os iSGLT2 devem ser suspensos 3 a 4 dias* antes da cirurgia para reduzir o risco de acidose metabólica perioperatória.
*Canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina ≥3 dias; ertugliflozina ≥4 dias antes da cirurgia programada.
- Mecanismo semelhante à cetose de jejum, intensificada pelo jejum perioperatório.
- Cetoacidose euglicêmica: glicemia <250 mg/dL, pH <7,3, bicarbonato <18 mEq/L e cetonas séricas/urinárias elevadas. Sintomas inespecíficos (náusea, dor abdominal, dispneia); suspeitar com acidose de ânion gap elevado + cetonas.
- FDA (2022) atualizou a bula; ADA endossa.
- Reinício: não há diretrizes claras; idealmente quando o paciente estiver clinicamente estável e com dieta normal.
Na IC, suspender o iSGLT2 é a única exceção à regra de manter a TMO. Oriente por escrito a data da última dose — o erro mais comum é o paciente tomar até a véspera.
❓ Pergunta-chaveCirurgia na segunda-feira de manhã; paciente em empagliflozina. Última dose?Ver resposta
Resposta: suspender ≥3 dias antes: sem doses na sexta, sábado e domingo (última dose na quinta-feira).
💡 Ertugliflozina: ≥4 dias.
❓ Pergunta-chaveGlicemia 160 mg/dL, pH 7,21, bicarbonato 14, cetonúria no 1º pós-op em uso recente de dapagliflozina: diagnóstico?Ver resposta
Resposta: cetoacidose euglicêmica (glicose <250, pH <7,3, HCO₃ <18, cetonas).
💡 Glicemia “normal” não exclui cetoacidose com iSGLT2.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.3 e 7.8; Top Take-Home Message nº 5.
25Controle glicêmico e outras terapias do diabetes
Em pacientes com diabetes ou em risco de diabetes agendados para CNC eletiva, é razoável dosar a hemoglobina glicada (HbA1c) se ela não tiver sido realizada nos últimos 3 meses.
Em pacientes agendados para CNC, os iSGLT2 devem ser suspensos 3 a 4 dias* antes da cirurgia para reduzir o risco de acidose metabólica perioperatória.
*Canagliflozina, dapagliflozina e empagliflozina ≥3 dias; ertugliflozina ≥4 dias antes da cirurgia programada.
Em pacientes com diabetes ou intolerância à glicose, é razoável manter a metformina no perioperatório para preservar o controle glicêmico.
- Não há evidência de que adiar para melhorar o controle melhore desfechos CV. Sem limiares validados de HbA1c, mas pode ser razoável adiar cirurgia eletiva se HbA1c >8%. Emergência/tempo-sensível não devem ser adiadas por HbA1c — foque no controle perioperatório.
- Glicemia pré-op ≥200 mg/dL: >2× mortalidade total e >4× mortalidade CV.
- Metformina: dados recentes não associam a acidose lática.
- Metas ótimas de glicemia intraoperatória não estão bem definidas.
- Agonistas de GLP-1: gastroparesia/esvaziamento gástrico lento. Declaração da ASA citada: suspender formulações semanais >1 semana antes e diárias na véspera, para reduzir aspiração pulmonar.
| Classe | Manter | Suspender | Quando | Motivo · classe e evidência |
|---|---|---|---|---|
| Betabloqueador | Sim (uso crônico) | Não iniciar no dia | Novo: idealmente >7 d antes | 1 B-NR · 2b B-NR · 3 Dano B-R |
| Estatina | Sim | — | Iniciar se indicada (longo prazo) | 1 B-NR · 1 B-R |
| IECA/BRA (HAS) | Individualizar | Omitir em selecionados | 24 h antes (PA controlada + risco elevado) | 2b B-R — hipotensão |
| iSRAA (ICFEr) | Sim | — | — | 2a C-EO |
| INRA | Sem dados perioperatórios (lacuna) | — | ||
| Anti-hipertensivos em geral | Maioria | Cautela: PA baixa, ≥65 a, risco de hipotensão | Reiniciar assim que razoável | 2a C-EO · 1 C-EO |
| BCC | Continuação pode ser razoável | Não iniciar para proteção | — | Texto; hipotensão/bradicardia |
| Clonidina / alfa-2 | Crônico: não suspender abruptamente | Não iniciar | — | 3 sem benefício B-R (início) |
| iSGLT2 | — | Sim | ≥3 d (cana/dapa/empa); ≥4 d (ertu) | 1 C-LD — cetoacidose |
| Metformina | Sim | — | — | 2a C-LD |
| aGLP-1 | — | Sim (ASA, citado no texto) | Semanal >1 semana; diário na véspera | Texto — aspiração |
| AAS (ICP prévia) | Sim, se possível | — | — | 1 B-R |
| DAPT (<30 d BMS / <3 m DES) | Sim, se tempo-sensível | Se sangramento proibitivo | P2Y12: clopi 5–7 d, prasu 7–10 d, tica 3–5 d | 1 B-NR |
| DOAC | Sangramento mínimo | Baixo/mod ou alto | Tabela 13 | 1 B-NR; sem terapia de ponte |
| Varfarina | Sangramento mínimo | Demais | Última dose D−6; terapia de ponte só em alto risco | 1 B-NR · 2a C-LD · 3 Dano C-LD |
| Terapias-alvo de HAP | Sim | — | — | 1 C-LD |
| TMO de IC (exceto iSGLT2) | Sim (compensada) | — | — | 2a C-LD |
❓ Pergunta-chaveHbA1c 9,2% em paciente para artroplastia eletiva: adiar?Ver resposta
Resposta: pode ser razoável adiar cirurgia eletiva com HbA1c >8% (texto de suporte), embora não haja limiar validado nem prova de benefício CV do adiamento.
💡 Emergência/tempo-sensível: não adiar por HbA1c.
❓ Pergunta-chaveSemaglutida semanal: quando suspender antes da cirurgia eletiva?Ver resposta
Resposta: segundo a declaração da ASA citada na diretriz, suspender formulações semanais >1 semana antes (diárias: na véspera).
💡 Não é recomendação formal com classe/nível de evidência da diretriz.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 7.8, 10.2 e 12.
26Manejo intraoperatório
Pressão arterial
Manter PAM ≥60–65 mmHg ou PAS ≥90 mmHg para reduzir lesão miocárdica. Tratar hipotensão pós-op (PAM <60–65 ou PAS <90) 1 B-NR.
Técnica anestésica
Em pacientes submetidos a CNC, é razoável utilizar anestésico volátil ou anestesia venosa total na anestesia geral, sem diferença aparente nos eventos cardiovasculares (ex.: IAM, isquemia).
Em pacientes submetidos a CNC em que a anestesia neuraxial é factível, tanto a anestesia neuraxial quanto a geral são razoáveis, sem diferença aparente nos eventos cardiovasculares.
FiO₂ 30% vs 80%: sem diferença em lesão miocárdica ou NT-proBNP. Raquianestesia vs geral na fratura de quadril (1.600 pacientes): sem diferença no desfecho primário nem em IAM, PCR não fatal ou AVC.
Analgesia
Em pacientes submetidos a cirurgia abdominal de grande porte, é razoável utilizar analgesia peridural para o controle da dor pós-operatória, a fim de reduzir a incidência de eventos cardíacos perioperatórios.
Em pacientes com fratura de quadril que aguardam correção cirúrgica, a analgesia peridural pode ser considerada para reduzir a incidência de eventos cardíacos pré-operatórios.
Dor aumenta demanda de O₂ e pode causar IAM tipo 2. Gabapentinoides tiveram pouco sucesso poupador de opioide e efeitos adversos, incluindo delirium em ≥65 anos.
Monitorização
Em pacientes com DCV submetidos a CNC, o uso de cateter de artéria pulmonar pode ser considerado quando condições que afetam significativamente a hemodinâmica (ex.: IC descompensada, valvopatia grave, estados de choque combinados, HP) não puderem ser corrigidas antes da cirurgia.
Em pacientes com DCV submetidos a CNC, o uso rotineiro de cateter de artéria pulmonar não é recomendado para reduzir morbidade ou mortalidade.
Em pacientes com instabilidade hemodinâmica aguda e grave e disfunção cardiopulmonar submetidos a CNC urgente ou de emergência, dispositivos de suporte circulatório mecânico temporário podem ser usados de forma preventiva ou como terapia de resgate.
| Ferramenta | Recomendação | Classe | Evidência |
|---|---|---|---|
| ETE ou FoCUS de emergência | Instabilidade hemodinâmica inexplicada, se houver profissional capacitado | 2a | C-LD |
| ETE de rotina | Sem fatores de risco/procedimento de risco para comprometimento hemodinâmico: não recomendada para rastrear anormalidades ou monitorar isquemia | 3 | C-LD |
| Cateter de artéria pulmonar | Pode ser considerado quando condições que afetam a hemodinâmica (IC descompensada, valvopatia grave, choque combinado, HP) não podem ser corrigidas antes | 2b | C-LD |
| Cateter de artéria pulmonar de rotina | Não recomendado para reduzir morbimortalidade | 3 | A |
| Suporte circulatório mecânico temporário | Instabilidade hemodinâmica aguda grave e disfunção cardiopulmonar em CNC urgente/emergência: pode ser usado preventivamente ou como resgate | 2b | C-LD |
Não há evidência de alta qualidade para SCM de rotina em risco de choque; em resgate (BIA, ECMO, dispositivos percutâneos), abordagem multidisciplinar é essencial. PAC: ensaio em ASA III–IV sem diferença, com mais TEP; meta-análise sem melhora vs PVC.
Temperatura
Em pacientes com DCV submetidos a CNC, é razoável manter a normotermia para evitar complicações perioperatórias em geral.
Hipotermia associa-se a infecção, coagulopatia, sangramento, transfusão, arritmia e tremores. Hipotermia leve (35,5 °C) não se correlacionou com eventos cardíacos; ECR de 5.056 pacientes (37 °C vs 35,5 °C) sem diferença em MACE em 30 dias.
Anemia
Em pacientes submetidos a CNC com perda sanguínea esperada, é razoável utilizar ácido tranexâmico para reduzir o sangramento intraoperatório, reduzir transfusões e evitar anemia.
Em pacientes com anemia ferropriva agendados para CNC eletiva, é razoável administrar ferro (oral ou intravenoso) no pré-operatório para reduzir transfusões e elevar a hemoglobina.
Anemia (OMS): Hb <13 g/dL homens, <12 g/dL mulheres. Ferropenia: ferritina <100 ng/mL, saturação de transferrina <20% e/ou microcitose/hipocromia. Maioria das anemias corrigíveis em 2–4 semanas. Ferro oral pouco eficaz se dado só 1–2 semanas antes; IV (mesmo dose única) é mais eficaz. Limiar transfusional restritivo de 8 g/dL em ortopedia e DCV (AABB); 7 g/dL provavelmente comparável, sem evidência suficiente.
❓ Pergunta-chaveAnestesia geral venosa total é mais cardioprotetora que inalatória em CNC?Ver resposta
Resposta: não há diferença aparente em eventos CV; ambas são razoáveis 2a A.
💡 A escolha deve ser guiada por outros fatores do paciente/cirurgia.
❓ Pergunta-chaveCateter de artéria pulmonar de rotina em DCV melhora desfechos?Ver resposta
Resposta: não 3: sem benefício A. Pode ser considerado (2b) quando condição hemodinâmica grave não pode ser corrigida antes.
💡 É um monitor: só ajuda se interpretado e usado com protocolo.
❓ Pergunta-chaveHb 10,5 g/dL por ferropenia, cirurgia eletiva em 4 semanas: conduta?Ver resposta
Resposta: tratar com ferro pré-operatório 2a B-R; com pouco tempo, a via IV é mais eficaz.
💡 Maioria das anemias corrige em 2–4 semanas.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.2, 8.1, 8.2, 8.3.1–8.3.4 e 8.4.
27POCUS/FoCUS e ecocardiografia perioperatória
Em pacientes com instabilidade hemodinâmica inexplicada durante a CNC, o uso de emergência de ecocardiograma transesofágico (ETE) ou de ultrassonografia cardíaca focada (FoCUS) perioperatórios é razoável para determinar a causa, se houver profissional capacitado prontamente disponível.
Em pacientes submetidos a CNC sem fatores de risco ou riscos do procedimento para comprometimento hemodinâmico significativo, o ETE intraoperatório de rotina não é recomendado para rastrear anormalidades cardíacas ou monitorar isquemia miocárdica.
- Função do VE: disfunção global grosseira? Nova alteração segmentar grosseira?
- VD: dilatação/disfunção (TEP, sobrecarga de pressão, HP)?
- Derrame pericárdico e sinais de tamponamento?
- Estado volêmico: ventrículos pequenos e hiperdinâmicos sugerem hipovolemia.
- Causas mecânicas evidentes: ex.: obstrução dinâmica da VSVE na CMH (melhor com ETE/eco completo).
FoCUS = janelas limitadas e padronizadas, para identificar grosseiramente patologia na instabilidade. Se for necessária informação adicional para excluir causa cardíaca, deve ser feito um exame abrangente. Apêndice atrial esquerdo e aorta torácica são melhor avaliados por ETE.
Mensagem-chave nº 9: FoCUS pode ser usado na instabilidade inexplicada quando há experiência, mas não deve substituir a ecocardiografia transtorácica abrangente. No pré-operatório, o ETT continua sendo o padrão para função do VE; FoCUS só por profissionais treinados.
ETE de emergência para instabilidade grave, inexplicada e persistente apesar de terapia corretiva é apropriada onde disponível (diretrizes ASA/SCA/ASE). Revisão sistemática: FoCUS intraoperatório útil para diagnosticar hipotensão inexplicada (evidência de baixa qualidade). ETE é baixo risco, mas tem complicações. Uso rotineiro de ETE em transplante de pulmão e cardíaco e, crescentemente, em procedimentos de alto risco de instabilidade.
❓ Pergunta-chaveHipotensão refratária após indução, sem causa óbvia, com anestesiologista treinado em FoCUS: é indicado?Ver resposta
Resposta: sim, uso de emergência de FoCUS ou ETE é razoável 2a C-LD.
💡 Achado duvidoso → exame abrangente.
❓ Pergunta-chaveETE de rotina para monitorar isquemia em colecistectomia de paciente estável?Ver resposta
Resposta: não 3: sem benefício C-LD.
💡 Reservar a cenários com risco de comprometimento hemodinâmico.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 8.3.1 e 4.2.1; Top Take-Home Message nº 9.
28🫀 MINS — Myocardial Injury After Noncardiac Surgery
Diagnóstico de MINS exige >1 troponina elevada (>p99 do limite superior de referência) de presumida origem isquêmica, excluindo causas não isquêmicas (TEP, AVC, sepse). Engloba IAM tipo 1 e tipo 2, inclusive lesão assintomática, porque anestesia, analgesia e dor cirúrgica mascaram sintomas.
Em pacientes com DCV conhecida, sintomas de DCV ou idade ≥65 anos com fatores de risco cardiovascular, submetidos a CNC de risco elevado, pode ser razoável dosar a cTn 24 e 48 h após a cirurgia para identificar lesão miocárdica.
Em pacientes submetidos a CNC de baixo risco, o rastreamento pós-operatório rotineiro com cTn não está indicado na ausência de sinais ou sintomas sugestivos de isquemia miocárdica ou de IAM.
Em pacientes que desenvolvem MINS, especialmente naqueles sem excesso de risco cardiovascular previamente conhecido, é razoável o seguimento ambulatorial para otimização dos fatores de risco cardiovascular.
Em pacientes que desenvolvem MINS, a terapia antitrombótica pode ser considerada para reduzir eventos tromboembólicos.
- Lesão miocárdica perioperatória: ~20% das CNC; 80–90% sem sinais ou sintomas isquêmicos.
- Mortalidade em 30 dias ~10%, proporcional ao pico de troponina (17% no quartil mais alto vs 1% no mais baixo); risco atribuível populacional de 34%.
- VISION-like (21.842 pacientes): troponina elevada sem característica isquêmica → 3× risco de morte em 30 dias; com característica isquêmica → 5×.
- Preditores: fatores de risco/DCV, doença renal, cirurgia urgente/emergente. DAC aterosclerótica é a etiologia presumida na maioria.
- Troponina basal pré-op ou seriada ajuda a distinguir lesão aguda de crônica; ensaios convencionais de 4ª geração ou de alta sensibilidade podem ser usados.
- Consulta/transferência para cardiologia associou-se a menor mortalidade precoce. Paciente deve ser informado do diagnóstico.
- Terapia ótima incerta: antiplaquetários e estatinas apoiados apenas por observacionais; menos de 1/3 tem intensificação da TMO.
- MANAGE (1.754 pacientes): dabigatrana 110 mg 2×/dia dentro de 35 dias da MINS reduziu eventos vasculares maiores sem aumentar sangramento maior, mas com mais sangramento menor/GI; alta descontinuação e mudança post hoc do desfecho.

Leitura em texto: troponina >percentil 99 do LSR* → anamnese e exame físico → ECG de 12 derivações → supradesnivelamento do segmento ST? Sim → IAMCSST: pacientes que desenvolvem IAMCSST após CNC devem receber TMO, incluindo consideração de cateterismo, ponderando sangramento e trombose diante da gravidade 1. Não → pelo menos 1 critério da Definição Universal de IAM?† (sintomas de isquemia miocárdica aguda; novas alterações isquêmicas no ECG; ondas Q patológicas novas; evidência de imagem de perda nova de miocárdio viável ou nova alteração segmentar; trombo coronariano identificado por angiografia, incluindo imagem intracoronariana). Sim → IAMSSST: suspeita de ruptura aguda de placa? Sim → IAMSSST tipo 1: TMO como no IAM espontâneo, com as limitações impostas pelo risco de sangramento e pelo estado hemodinâmico 1; pode haver benefício do cateterismo após ponderar sangramento e trombose 2a. Não → IAMSSST tipo 2: tratar a causa do desequilíbrio entre oferta e demanda e otimizar a TMO, com as limitações impostas pelo sangramento e pelo estado hemodinâmico. Não → lesão miocárdica pós-operatória: lesão provavelmente não isquêmica? Sim → lesão miocárdica não isquêmica†: tratar a causa. Não → MINS: é razoável discutir e reconhecer o diagnóstico, incluindo encaminhamento ambulatorial 2a.
*Pressupõe ascensão e queda da troponina compatíveis com lesão miocárdica aguda; pode-se usar ensaio convencional de quarta geração ou de alta sensibilidade. †A lesão miocárdica não isquêmica inclui embolia pulmonar, sepse, IC aguda descompensada ou AVC agudo. As cores correspondem à classe de recomendação (Tabela 3).
Se você vai dosar troponina pós-op, considere colher uma basal pré-op: sem ela, uma troponina elevada no 1º dia pode ser lesão crônica.
❓ Pergunta-chavePor que a maioria dos casos de MINS é assintomática?Ver resposta
Resposta: anestesia, analgesia e dor no sítio cirúrgico reduzem a percepção/relato de sintomas; 80–90% não têm sinais isquêmicos.
💡 Só detecta quem procura — daí a vigilância em alto risco (2b).
❓ Pergunta-chaveQuem deve ter troponina em 24 e 48 h?Ver resposta
Resposta: DCV conhecida, sintomas de DCV, ou ≥65 anos com fatores de risco, em CNC de risco elevado 2b B-NR. Não em CNC de baixo risco sem sintomas (3, B-NR).
💡 Sem plano de ação, a vigilância perde valor — defina o fluxo antes.
❓ Pergunta-chaveMINS confirmada em paciente sem DCV prévia: o que fazer na alta?Ver resposta
Resposta: seguimento ambulatorial para otimizar fatores de risco 2a B-NR; antitrombótico pode ser considerado 2b C-LD; estatina conforme indicação.
💡 Informe o paciente: MINS é marcador de risco a longo prazo.
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 9.1, Figura 6.
29IAM perioperatório (STEMI/NSTEMI)
Pacientes que desenvolvem IAM com supradesnivelamento do segmento ST (IAMCSST) após a CNC devem ser considerados para TMO, incluindo a avaliação de cateterismo cardíaco, ponderando os riscos de sangramento e de trombose diante da gravidade do quadro clínico.
Pacientes que desenvolvem IAM sem supradesnivelamento do segmento ST (IAMSSST) após a CNC devem receber o tratamento medicamentoso recomendado para o IAM espontâneo, após considerar o risco de sangramento pós-operatório e o estado hemodinâmico.
Pacientes que desenvolvem IAMSSST após a CNC podem ser considerados para cateterismo cardíaco, ponderando os riscos de sangramento e de trombose diante da gravidade do quadro clínico.
- Incidência de IAM perioperatório 0,9–15%; predomínio de tipo 2. Quase 1/3 morre ou é readmitido em 30 dias.
- STEMI perioperatório (minoria) tem mortalidade intra-hospitalar de 30–35%; o cateterismo de emergência deve ser fortemente considerado; decisões em equipe (cirurgião, anestesiologista, cardiologista).
- NSTEMI: ao menos 1 antiplaquetário (se benefício > sangramento) e estatina de alta intensidade; betabloqueador, IECA e nitrato se a hemodinâmica permitir.
- Maior benefício do cateterismo urgente: sintomas refratários, instabilidade, biomarcador persistentemente elevado, nova alteração segmentar ou queda de função. Pesar sangramento residual, tipo de cirurgia e tempo desde a cirurgia (anticoagulação e DAPT após ICP).
- Tipo 2: tratar a causa (hipertensão, hipotensão, taquicardia, anemia).
❓ Pergunta-chaveSTEMI no 2º dia após gastrectomia: cateterismo?Ver resposta
Resposta: sim, considerar cateterismo de emergência dentro da TMO, pesando sangramento e trombose 1 B-NR, com decisão em equipe.
💡 Mortalidade de 30–35%: não deixar de considerar por medo de sangramento sem discutir com o cirurgião.
❓ Pergunta-chaveNSTEMI com Hb 6,8 g/dL após sangramento cirúrgico: prioridade?Ver resposta
Resposta: provável tipo 2 — corrigir a causa (anemia/sangramento) e individualizar antitrombóticos pelo risco hemorrágico.
💡 Terapia do IAM espontâneo sempre “ajustada” ao sangramento (1, C-EO).
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seção 9.2, Figura 6.
+Outras situações especiais
| Situação | Recomendação | Classe | Evidência | Ponto prático |
|---|---|---|---|---|
| AVC/AIT prévio | Adiar CNC eletiva ≥3 meses após o último evento cerebrovascular | 2a | B-NR | Adiar ≥6 meses não parece proteger mais |
| Apneia obstrutiva do sono | Rastreamento com questionário validado (ex.: STOP-Bang) | 2a | B-NR | Retomar CPAP no pós-op o quanto antes; anestesia regional razoável para reduzir opioides (texto) |
| Cardiopatia congênita do adulto (risco intermediário a elevado, Tabela 10) | Consulta pré-op com especialista em cardiopatia congênita do adulto | 1 | B-NR | Eisenmenger/Fontan: evitar ↑pressão intra-abdominal, hipotermia, hipercapnia, acidose, hipovolemia; filtros de ar em shunt D→E |
| LVAD | Coordenação com a equipe de LVAD sobre momento e cuidados | 1 | C-EO | Maior chance de eventos se CNC <6 meses após implante (dados antigos) |
| Transplantado cardíaco | Sem recomendação numerada; avaliação em colaboração com a equipe de transplante (ISHLT) | — | — | Denervação, imunossupressão, interações, transfusão (HLA, CMV) |
| Transplante renal/hepático | Sem recomendação numerada; rastreio de DAC direcionado vs rotina com desfechos semelhantes | — | — | ISCHEMIA-CKD: invasivo sem benefício em DRC avançada |
| Obesidade/bariátrica | Sem recomendação numerada; IAM perioperatório 0,37%, mortalidade 0,08% | — | — | História de SCA ou IC aumenta risco; aGLP-1 — ver seção 25 |
AVC/AIT prévio, apneia obstrutiva do sono e LVAD
Em pacientes com história de AVC ou ataque isquêmico transitório, é razoável adiar a CNC eletiva por ≥3 meses após o evento cerebrovascular mais recente, para reduzir a incidência de AVC recorrente, de MACE ou de ambos.
Em pacientes agendados para CNC, é razoável o rastreamento de apneia obstrutiva do sono com questionários validados para avaliar o risco de complicações perioperatórias.
Em pacientes com dispositivo de assistência ventricular esquerda (LVAD), recomenda-se coordenação com a equipe responsável pelo LVAD quanto ao momento adequado e aos cuidados perioperatórios da CNC eletiva, para reduzir o risco de MACE perioperatório.
Cardiopatia congênita do adulto (seção 6.3.3)
Em pacientes com lesões de cardiopatia congênita de risco intermediário a elevado (Tabela 10) que serão submetidos a CNC eletiva, recomenda-se consulta pré-operatória com especialista em cardiopatia congênita do adulto.
| Risco | Anatomia | Estado funcional/hemodinâmico |
|---|---|---|
| Baixo risco | Pacientes com lesões congênitas pequenas e isoladas Pacientes com lesão congênita corrigida, sem shunt residual Pacientes com valva aórtica bicúspide e aortopatia | Classe funcional I da NYHA, capacidade de exercício normal Sem aumento de câmaras à imagem Sem shunt residual Sem HAP Sem arritmias |
| Risco intermediário | Shunts moderados a grandes não corrigidos (CIA, CIV, PCA, DSAV) Cardiopatia congênita corrigida com shunt residual moderado a grande (CIA, CIV, PCA, DSAV) Lesões obstrutivas esquerdas (estenose mitral congênita, estenose subaórtica, estenose supravalvar aórtica, coarctação da aorta), exceto as descritas como de baixo risco Lesões obstrutivas direitas (estenose pulmonar, estenose de ramos pulmonares, tetralogia de Fallot corrigida) Anomalia de Ebstein (espectro inclui formas leve, moderada e grave) Origem anômala de artéria coronária a partir da artéria pulmonar Origem anômala de artéria coronária a partir do seio oposto, especialmente com trajeto interarterial ou intramural | Classe funcional II–IV da NYHA Capacidade de exercício limitada Presença de shunt residual Presença de HAP Presença de aumento de câmaras cardíacas Disfunção valvar significativa (mais que leve) Arritmias que requerem tratamento Presença de IC |
| Risco elevado | Pacientes com ventrículo único (paliados ou após cirurgia de Fontan), cardiopatia congênita cianótica não corrigida ou paliada, dupla via de saída do ventrículo direito, atresia pulmonar, truncus arteriosus, transposição das grandes artérias (clássica ou d-TGA; TCGA ou l-TGA), interrupção do arco aórtico | Classe funcional II–IV da NYHA Capacidade de exercício limitada Disfunção valvar significativa (mais que leve) Arritmias que requerem tratamento Presença de HAP Presença de IC |
Adaptada com permissão de Stout et al.
CIA indica comunicação interatrial; DSAV, defeito do septo atrioventricular; TCGA, transposição corrigida das grandes artérias; d-TGA, transposição das grandes artérias com dextroposição; IC, insuficiência cardíaca; l-TGA, transposição das grandes artérias com levoposição; NYHA, New York Heart Association; HAP, hipertensão arterial pulmonar; PCA, persistência do canal arterial; TGA, transposição das grandes artérias; CIV, comunicação interventricular.
| Manejo |
|---|
| Esclarecer o diagnóstico da cardiopatia congênita do adulto e revisar a anatomia cardíaca |
| Esclarecer procedimentos prévios, lesões residuais, sequelas e estado funcional atual |
| Identificar fatores associados a maior risco de morbimortalidade perioperatória |
| Cianose |
| IC |
| Baixa capacidade funcional |
| Hipertensão pulmonar |
| Lesões congênitas de risco intermediário a alto |
| Procedimentos urgentes/de emergência |
| Cirurgias do sistema respiratório e do sistema nervoso |
| Discussão em equipe multidisciplinar para desenvolver estratégias de manejo que minimizem o risco e otimizem os desfechos |
| Aspectos a considerar |
| Profilaxia de endocardite |
| Prevenção de trombose venosa |
| Monitorização das funções renal e hepática e ajuste apropriado de doses |
| Complicações relacionadas à hemodinâmica subjacente |
| Necessidade de monitorização hemodinâmica |
| Anticoagulação periprocedimento |
| Anatomia venosa e/ou arterial anômala que afete os acessos venoso e arterial |
| Cuidado meticuloso com os acessos, incluindo filtros de ar nas linhas intravenosas para reduzir o risco de embolia paradoxal em pacientes cianóticos por shunt direita-esquerda |
| Arritmias, incluindo bradiarritmias |
| Eritrocitose |
| Doença vascular pulmonar |
| Ajuste do volume de anticoagulante nos tubos de alguns exames laboratoriais em pacientes cianóticos |
Adaptada com permissão de Stout et al.
CCA indica cardiopatia congênita do adulto; CC, cardiopatia congênita; IC, insuficiência cardíaca.
❓ Pergunta-chaveAVC isquêmico há 6 semanas, artroplastia eletiva: operar?Ver resposta
Resposta: é razoável adiar até ≥3 meses após o evento 2a B-NR.
💡 Não há ganho adicional claro em esperar ≥6 meses.
❓ Pergunta-chavePaciente com Fontan para cirurgia abdominal eletiva: primeiro passo?Ver resposta
Resposta: consulta pré-operatória com especialista em cardiopatia congênita do adulto 1 B-NR; idealmente em centro com programa de cardiopatia congênita do adulto.
💡 Fisiologia univentricular = risco elevado (Tabela 10).
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 6.3.3 (Tabelas 10 e 11), 6.3.4, 6.3.5, 6.7, 6.8, 10.1 e 10.2.
🚫 10 coisas que a diretriz quer que você pare de fazer
Todas correspondem a recomendações formais Classe 3 (sem benefício ou dano).
Teste de estresse de rotina em baixo risco
Em baixo risco, capacidade funcional adequada com sintomas estáveis ou cirurgia de baixo risco: custa, atrasa, gera cascata e não melhora desfechos.
Angio-TC de rotina
Superestima o risco (>5× vs escores) e pode atrasar/cancelar cirurgias sem benefício.
Cateterismo de rotina “para liberar”
Indicações devem ser as mesmas do contexto não operatório.
Revascularização profilática de DAC não-tronco
CARP e meta-análises: sem redução de morte ou IAM; atraso cirúrgico e sangramento.
Eco de rotina em estável e assintomático
Grandes coortes sem melhora de desfechos; reservar a sintomas, sinais ou suspeita valvar.
ECG de rotina em assintomático para cirurgia de baixo risco
Pouco efeito em conduta/complicações; eliminá-lo reduz custos e cascata.
Betabloqueador iniciado no dia da cirurgia
POISE: mais hipotensão, AVC e mortalidade total.
Terapia de ponte de rotina
Mais sangramento sem menos tromboembolismo (BRIDGE, PERIOP-2); DOAC não precisa de ponte.
CNC eletiva ≤30 dias após stent com interrupção antiplaquetária
Alto risco de trombose de stent e isquemia.
Iniciar clonidina ou AAS “protetores”
POISE-2: clonidina sem benefício, com bradicardia/hipotensão; AAS de rotina em DAC sem ICP (não carotídea) sem benefício e com mais sangramento.
- Troponina pós-op de rotina em CNC de baixo risco sem sintomas (3, B-NR).
- Avaliação de rotina da função do VE em estáveis; ETE intraoperatório de rotina (3, C-LD); cateter de artéria pulmonar de rotina (3, A).
- Inotrópicos, taquicardia ou hipovolemia na CMH obstrutiva (3: dano, C-LD).
Fonte: AHA/ACC Perioperative Guideline 2026 — seções 4.1, 4.2.1, 4.3, 4.5, 4.6, 6.1.1, 6.3.1, 7.4, 7.5, 7.6, 7.7, 8.3.1, 8.3.4 e 9.1.
30✅ Checklist de avaliação cardiovascular pré-operatória
Marque durante a consulta (as marcações ficam apenas nesta sessão do navegador).
Fonte: síntese didática das seções 1.5, 3–9 da AHA/ACC Perioperative Guideline 2026.
📌 Diretriz em 2 minutos
- 2026 = 2024: nenhuma recomendação mudou (evidência revisada até março/2026).
- Fluxo: emergência → instabilidade → risco → capacidade funcional → biomarcadores → teste só se mudar conduta.
- Risco elevado = MACE ≥1% (RCRI >1 ou >1% na calculadora). Nenhum escore é superior.
- Baixa capacidade funcional = <4 METs ou DASI ≤34; use DASI (2a), não a impressão subjetiva.
- Fragilidade em ≥65 anos para CNC de risco elevado (2a).
- BNP/NT-proBNP pré-op 2a; troponina pré-op 2b (DCV, ≥65, ou ≥45 com sintomas; risco elevado).
- Figura 1: BNP >92 ng/L, NT-proBNP ≥300 ng/L, troponina >p99 = anormal; limiar ótimo não estabelecido.
- ECG de rotina em baixo risco assintomático: 3. Eco de rotina em estáveis: 3. Eco se dispneia nova/sinais de IC: 1.
- Estresse e angio-TC: 2b só em risco elevado + CF baixa/desconhecida; rotina em baixo risco: 3. Cateterismo de rotina: 3.
- SCA → revascularizar e adiar (1). TCE ≥50% → revascularizar e adiar é razoável (2a). DAC não-tronco → não revascularizar de rotina (3).
- Pós-PCI: balão ≥14 d; ≤30 d de stent = dano; DES-DCC ≥6 m; DES-SCA ≥12 m; tempo-sensível ≥3 m (2b).
- Manter AAS após ICP (1); manter DAPT se CNC tempo-sensível <30 d BMS/<3 m DES (1).
- Recuperação plaquetária: AAS 4 d, clopidogrel 5–7, prasugrel 7–10, ticagrelor 3–5.
- ACO: interrupção por tempo em equipe (1); terapia de ponte de rotina = dano; só AVK de alto risco (2a); retomar após hemostasia (2a).
- iSGLT2: suspender ≥3 d (cana/dapa/empa) e ≥4 d (ertu) (1). Metformina: manter (2a).
- Betabloqueador: manter (1); iniciar >7 d se indicado (2b); nunca no dia (3: dano).
- Estatina: manter (1); iniciar se indicada, visando longo prazo (1).
- iSRAA: omitir 24 h em HAS controlada + risco elevado (2b); manter na ICFEr (2a).
- PA: adiar se ≥180/110 recente + RCRI + eletiva de risco elevado (2b); PAM ≥60–65/PAS ≥90 intraop (1).
- EAo grave → avaliar intervenção (1); assintomática + VE normal + baixo risco → prosseguir (2a). TAVI → CNC precoce (2a).
- CMH: evitar inotrópicos, taquicardia, hipovolemia (3: dano). HP grave → centro de HP e monitorização invasiva (2a).
- DCEI: plano pré-op (1); dependente + acima do umbigo → assíncrono; CDI → reprogramar/ímã; restaurar antes da alta (1).
- FA nova: tratar gatilhos, avaliar anticoagulação (2a), seguimento ambulatorial (1).
- FoCUS/ETE na instabilidade inexplicada (2a), sem substituir o ETT; ETE de rotina (3).
- MINS: troponina 24/48 h em alto risco (2b); seguimento (2a); antitrombótico pode ser considerado (2b).
31🎓 Desafio final — 20 questões
Casos integrando vários capítulos. Escolha uma alternativa e depois abra a resposta comentada.
Nenhuma questão respondida ainda.