Dr. Guilherme MouraCardiologista | Ecocardiografista

Artigos comentados · Publicado em · Dr. Guilherme Moura

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Interpretação da gasometria arterial em 7 passos

Uma leitura comentada das abordagens fisiológica e quantitativa, aplicada ao dia a dia: algoritmo sequencial, tabelas de consulta, calculadoras, casos resolvidos e questões. Os resultados automáticos são hipóteses educacionais, não diagnósticos definitivos; confronte-os com a história, as condições da coleta e os demais exames.

AFP 2025 Morikawa & Ganesh — abordagem prática sequencial NEJM 2014 Berend et al. — abordagem fisiológica JEM 2025 Spiegel et al. — quantitativa simplificada (SID)

Visão geral

Os 7 passos

A sequência da abordagem fisiológica (AFP 2025; NEJM 2014). Os passos 4–6 só se aplicam quando há componente metabólico; o passo 7 fecha o raciocínio com o contexto clínico.

1

Olhe o pH

pHInterpretação
< 7,38Acidemia
7,38 – 7,42Normal — ou distúrbio misto
> 7,42Alcalemia
AlertapH normal não exclui distúrbio ácido–base. Dois distúrbios com efeitos opostos podem se anular no pH; o NEJM lembra que um aumento do anion gap > 5 mmol/L pode ser a única pista de um distúrbio misto oculto.
Abordagens diferentes na literaturaAFP e NEJM definem acidemia como pH < 7,38 e alcalemia > 7,42. Spiegel et al. usam 7,35 / 7,45 (faixa laboratorial habitual). A calculadora permite escolher a faixa.
2

Identifique o processo primário

pHPaCO₂HCO₃⁻ (apoio)Processo predominante
↓↑↑ (secundário)Acidose respiratória
↓↓↓ (primário)Acidose metabólica
↑↓↓ (secundário)Alcalose respiratória
↑↑↑ (primário)Alcalose metabólica
Regra visual (AFP)pH e PaCO₂ em direções opostas → distúrbio respiratório.
pH e PaCO₂ na mesma direção → distúrbio metabólico.
Henderson–Hasselbalch (NEJM)pH = pK + log₁₀ [HCO₃⁻ ÷ (0,03 × PaCO₂)]. A calculadora usa essa relação (pK 6,1) para checar a consistência interna da amostra.

Sangue venoso: PvCO₂ ≈ PaCO₂ + 6 mmHg (AFP); a gasometria arterial é preferida para avaliar oxigenação.

3

Calcule a compensação esperada

Se o valor medido se afasta do esperado, existe um segundo distúrbio. A tabela mestra traz todas as fórmulas com as margens declaradas por cada fonte. Lembre: a compensação respiratória se completa em 12–36 h; a renal, em 2–5 dias (NEJM).

4

Anion gap (± albumina)

AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻). Corrija pela albumina sempre que disponível: hipoalbuminemia mascara AG elevado em > 50% dos casos (NEJM). Ver seção →

5

Delta–Delta · Osmolal gap · UAG

AG elevado → ΔAG vs ΔHCO₃ (segundo distúrbio metabólico?) e osmolal gap quando não há explicação. AG normal → urine anion gap (renal vs extrarrenal). Ver →

6

Alcalose → Cl⁻ urinário · Respiratório → agudo/crônico

Cloro urinário separa depleção de cloreto de excesso mineralocorticoide. Nos distúrbios respiratórios, o HCO₃⁻ diz se o processo é agudo, crônico ou agudo sobre crônico. Ver →

7

Feche com o contexto clínico

O NEJM é enfático: os dados laboratoriais precisam caber na apresentação clínica. Spiegel et al. vão além — o pH exato importa pouco; o que muda desfecho é identificar e tratar a causa. Nenhuma fórmula substitui o exame do trabalho respiratório e do estado mental.

Fluxograma principal

Da gasometria ao diagnóstico

Cada caixa é clicável e leva à seção correspondente. No celular, o fluxo é vertical.

Gasometria + eletrólitos séricospH · PaCO₂ · HCO₃⁻ · Na⁺ · Cl⁻ (± albumina, lactato, cetonas, osmolalidade, urina)
↓
↓
↓
↓
Se acidose metabólica
↓
AG elevado
↓
AG normal
↓
Se alcalose metabólica
↓
Se distúrbio respiratório
↓
↓

Referência

Valores normais

Adaptado da Tabela 1 do AFP 2025 e da Tabela 1 do NEJM 2014. O AG e o osmolal gap dependem do analisador — conheça a faixa do seu laboratório.

MedidaValorFaixaFonte / observação
pH7,407,38 – 7,42AFP; NEJM (7,40 ± 0,02). Spiegel: 7,35 – 7,45
PaCO₂40 mmHg38 – 42 mmHgAFP; NEJM (40 ± 2). Spiegel: < 35 alcalose · > 45 acidose respiratória
PvCO₂PaCO₂ + 6≤ 48 mmHgAFP; NEJM (venoso 43–48)
HCO₃⁻24 mEq/L22 – 26 mEq/LAFP; NEJM (24 ± 2)
Anion gap = Na − (Cl + HCO₃)≤ 128 – 14 mEq/LAFP (elevado > 12). NEJM: referência específica do analisador (relatos de 3–12 até 8,5–15). Spiegel: < 8 baixo · > 15 elevado
Osmolalidade calculada285280 – 295 mOsm/kgAFP: 2 × Na + glicose/18 + BUN/2,8
Osmolal gap< 1010 ± 6 (AFP) · −10 a 10 (NEJM)Medida − calculada. Faixa populacional ampla → pouco sensível
Urine anion gap< 00 ± 10 mEq/LAFP: Na₍u₎ + K₍u₎ − Cl₍u₎
Gradiente A–a (ar ambiente)150 − PaO₂ − 1,25 × PaCO₂≤ 10 (jovem) · ≤ 20 (idoso)NEJM; estimativa por idade: idade/4 + 4
SID simplificado = Na − Cl36 – 40< 36 acidose · > 40 alcaloseSpiegel (abordagem quantitativa simplificada)

Passo 3

Compensação esperada

Tabela mestra imprimível. Quando o valor medido está fora do esperado, o desvio aponta o segundo distúrbio — a coluna da direita diz qual.

DistúrbioAlteração primáriaCompensação esperadaTempoSe estiver fora do esperado, pense em…
Acidose metabólica↓ HCO₃⁻ PaCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2 ⓘFórmula de Winter (NEJM; Spiegel). Estima a PaCO₂ que a hiperventilação compensatória deveria produzir.

Acima: acidose respiratória associada.
Abaixo: alcalose respiratória associada.

Limitação (Spiegel): derivada de coorte estável de CAD; não validada em todo o espectro; não deve guiar decisão de suporte ventilatório.


Regra rápida (AFP): PaCO₂ ≈ HCO₃⁻ + 15 — o NEJM adverte que esses atalhos não são confiáveis em todas as faixas de HCO₃⁻
12–24 h PaCO₂ > esperada → acidose respiratória adicional
PaCO₂ < esperada → alcalose respiratória adicional
Alcalose metabólica↑ HCO₃⁻ PaCO₂ = 40 + 0,7 × (HCO₃⁻ − 24) ± 2 ⓘCompensação da alcalose metabólica (AFP; NEJM com ± 2). PaCO₂ sobe por hipoventilação, limitada pela hipoxemia.

Acima: acidose respiratória associada. Abaixo: alcalose respiratória associada.

Nuance (NEJM): a resposta respiratória é difícil de prever; alternativas: HCO₃⁻ + 15 ou 0,7 × HCO₃⁻ + 20.

24–36 h PaCO₂ > esperada → acidose respiratória
PaCO₂ < esperada → alcalose respiratória
Acidose respiratória aguda↑ PaCO₂ HCO₃⁻ = 24 + 1 × (PaCO₂ − 40)/10
+1 mEq/L para cada +10 mmHg (AFP; NEJM)
minutos HCO₃⁻ < esperado (< 1/10) → acidose metabólica adicional
Acidose respiratória crônica↑ PaCO₂ HCO₃⁻ = 24 + 3,5 a 5 × (PaCO₂ − 40)/10
AFP: 3,5/10 · NEJM: 4–5/10
2–5 dias HCO₃⁻ > esperado (> 5/10) → alcalose metabólica adicional (ex.: pós-hipercapnia, diurético)
Entre agudo e crônico → avaliar evolução, basal e possível distúrbio metabólico associado
Alcalose respiratória aguda↓ PaCO₂ HCO₃⁻ = 24 − 2 × (40 − PaCO₂)/10
−2 mEq/L para cada −10 mmHg (AFP; NEJM)
minutos HCO₃⁻ > esperado (< 2/10 de queda) → alcalose metabólica adicional
Alcalose respiratória crônica↓ PaCO₂ HCO₃⁻ = 24 − 4 a 5 × (40 − PaCO₂)/10
AFP: 5/10 · NEJM: 4–5/10
2–5 dias HCO₃⁻ < esperado (> 5/10 de queda) → acidose metabólica adicional
Regra rápida no agudo (AFP)Uma variação de 10 mmHg na PaCO₂ corresponde a ≈ 0,08 no pH. Se o pH muda mais do que isso, há distúrbio metabólico adicional.
Nuance importanteNEJM: as equações de predição derivam de estudos com ~40 anos em humanos e cães, sem limites de confiança formais. A compensação classicamente normaliza o pH só na alcalose respiratória crônica; dados mais recentes mostram pH normal (ou até > 7,40) também em acidose respiratória crônica. Analisadores modernos podem ter referências ligeiramente diferentes.

Fluxograma: agudo ou crônico?

Acidose respiratóriaPaCO₂ > 40–42 mmHg
1. ΔPaCO₂ = PaCO₂ − 402. Dividir por 10
↓
3. HCO₃⁻ previsto agudo = 24 + 1 × (Δ/10)4. HCO₃⁻ previsto crônico = 24 + 3,5 a 5 × (Δ/10)
↓
5. Comparar com o HCO₃⁻ observado
↓
Abaixo do agudoacidose metabólica associada
≈ +1/10compatível com aguda
Ver exemplo com a conta

Exemplo: sedação recente, PaCO₂ 60 e HCO₃⁻ 26 mEq/L.

ΔPaCO₂ = 60 − 40 = 20
20 ÷ 10 = 2
HCO₃⁻ agudo = 24 + (1 × 2) = 26

O observado é 26: compatível com acidose respiratória aguda.

Entre agudo e crônicoem evolução ou agudo sobre crônico
≈ +3,5–5/10compatível com crônica
Ver exemplo com a conta

Exemplo: DPOC estável, PaCO₂ 60 e HCO₃⁻ 32 mEq/L.

ΔPaCO₂ = 60 − 40 = 20
20 ÷ 10 = 2
HCO₃⁻ crônico = 24 + (3,5 a 5 × 2) = 31–34

O observado é 32: compatível com acidose respiratória crônica.

↓
Acima do crônico (> 5/10)alcalose metabólica associada
Alcalose respiratóriaPaCO₂ < 38–40 mmHg
1. ΔPaCO₂ = 40 − PaCO₂2. Dividir por 10
↓
3. HCO₃⁻ previsto agudo = 24 − 2 × (Δ/10)4. HCO₃⁻ previsto crônico = 24 − 4 a 5 × (Δ/10)
↓
5. Comparar com o HCO₃⁻ observado
↓
Acima do agudoalcalose metabólica associada
≈ −2/10compatível com aguda
Ver exemplo com a conta

Exemplo: hiperventilação aguda por dor, PaCO₂ 25 e HCO₃⁻ 21 mEq/L.

ΔPaCO₂ = 40 − 25 = 15
15 ÷ 10 = 1,5
HCO₃⁻ agudo = 24 − (2 × 1,5) = 21

O observado é 21: compatível com alcalose respiratória aguda.

Entre agudo e crônicoem evolução / agudo sobre crônico
≈ −4–5/10compatível com crônica
Ver exemplo com a conta

Exemplo: hiperventilação persistente na gestação, PaCO₂ 25 e HCO₃⁻ 18 mEq/L.

ΔPaCO₂ = 40 − 25 = 15
15 ÷ 10 = 1,5
HCO₃⁻ crônico = 24 − (4 a 5 × 1,5) = 16,5–18

O observado é 18: compatível com alcalose respiratória crônica.

↓
Abaixo do crônico (> 5/10)acidose metabólica associada

Compensação renal completa em ≈ 2–5 dias (NEJM). Antes disso, um valor "entre agudo e crônico" pode ser apenas um distúrbio em evolução.

Passo 4

Acidose metabólica

pH < 7,38 com HCO₃⁻ < 22 mmol/L (NEJM). O primeiro movimento é o anion gap; o segundo, a albumina. Três mecanismos: acúmulo de ácidos, perda de álcali ou redução da excreção renal de ácido (AFP).

AG

Anion gap

Fórmula (AFP · NEJM · Spiegel)AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻) ⓘAnion gap: estima os ânions não mensurados (albumina, fosfato, sulfato, lactato, cetoácidos…). Potássio não entra na fórmula principal (as três fontes).

Elevado: acúmulo de ânions orgânicos/tóxicos. Baixo: hipoalbuminemia, cátions não mensurados (lítio, IgG), pseudo-hipercloremia (brometo).

Limitação: insensível para lactato — metade dos pacientes com lactato 3–5 tem AG normal (NEJM).

ResultadoClassificaçãoFonte
≤ 12 mEq/LNormalAFP (faixa 8–14)
> 12 mEq/LAumentadoAFP
> 10 acima do limite superiorFortemente sugestivo de acidose orgânicaNEJM (aumento discreto é pouco útil)
< 8 mEq/LBaixo — hipoalbuminemia / cátionsSpiegel ("AG alkalosis")

A referência é específica do analisador (NEJM cita faixas publicadas de 3–12 até 8,5–15). Esta ferramenta usa 12 como limite didático.

Calculadora 1 · Anion gap
Alb

Correção do anion gap pela albumina

Fórmula (NEJM)AG corrigido = AG + 2,5 × (4 − albumina g/dL) ⓘCorreção pela albumina. A albumina (ácido fraco) responde por até 75% do AG. Para cada 1 g/dL a menos, somar ≈ 2,3–2,5 mmol/L ao AG (NEJM). Esta ferramenta usa 2,5.

Quando: sempre que houver albumina — sobretudo em críticos, cirrose, síndrome nefrótica, desnutrição.

Limitação: aproximação; não considera Mg, Ca, fosfato.

Sem a correção, o AG estimado deixa de revelar um aumento clinicamente relevante (> 5 mmol/L) em mais de 50% dos casos (NEJM). Spiegel descreve o AG < 8 por perda de albumina como uma "alcalose de gap".

Mini-exemploAG = 10 · albumina = 2 g/dL
10 + 2,5 × (4 − 2) = 10 + 5 = 15
Apesar do AG bruto aparentemente normal, após a correção existe elevação do anion gap.
Calculadora 2 · AG corrigido

Causas de acidose metabólica com AG aumentado

Organizadas por mecanismo (NEJM, Tabela 2) e pelo ânion responsável (Spiegel), com o exame que confirma cada hipótese.

Mecanismo / ânionPense emAchado que sustentaExame seguinte
Lactato (≈ metade dos AG elevados — NEJM)Tipo A (hipóxico): choque séptico, hipovolêmico, cardiogênico; isquemia mesentérica; hipoxemia; CO; cianeto.
Tipo B: convulsão, tiamina, metformina, propofol, isoniazida, ferro, salicilato, glicóis, insuficiência hepática (clearance); D-lactato no intestino curto
Lactato ↑ (Spiegel: > 4 mmol/L exige pensar em hipoperfusão real)Lactato; perfusão, débito cardíaco, foco infeccioso; ECO se indicado
Cetoácidos (acetoacetato, β-hidroxibutirato)Cetoacidose diabética, alcoólica, de jejum/inaniçãoβ-hidroxibutirato ↑ (CAD tipicamente > 3 — Spiegel); glicemia; história de etilismoβ-hidroxibutirato sérico (nitroprussiato urinário não detecta BHB — NEJM), glicemia
Insuficiência renal avançada (TFG < 20 — NEJM)Uremia: sulfatos, fosfatos, ânions do ciclo de KrebsUreia/creatinina ↑ — mas a ureia não se correlaciona com o AG; AG geralmente discreto (Spiegel: hesite em atribuir grandes gaps só ao rim)Função renal, eletrólitos, gasometria seriada
Tóxicos / exógenosMetanol (formato), etilenoglicol (glicolato/oxalato), salicilato (lactato + cetonas + alcalose respiratória), propilenoglicol (lorazepam em infusão), paraldeído, tolueno (precoce)AG não explicado por lactato/cetonas/ureia; osmolal gap ↑ precoce; queixa visual (metanol); cristais de oxalato, hipocalcemia, lactato falsamente ↑ em POC (etilenoglicol)Osmolalidade medida, salicilato sérico, níveis de álcoois tóxicos, contato com toxicologia
OutrosRabdomiólise maciça (lise celular), 5-oxoprolina (acetaminofeno crônico), penicilínicosCK ↑; uso crônico de paracetamolCK, história medicamentosa
GOLD MARRK (NEJM)Glicóis · 5-Oxoprolina · L-Lactato · D-Lactato · Metanol · Aspirina · Renal · Rabdomiólise · Cetoacidose
CATMUDPILES (AFP)CO · Álcool/cetoacidose alcoólica · Tolueno · Metanol · Uremia · CAD · Paraldeído · Isoniazida/ferro/isopropanol · Lactato · Etilenoglicol · Salicilato
Como usar o mnemônico (Spiegel)Não como lista aleatória, mas para identificar qual ânion preenche o gap: a elevação de lactato ou BHB deve aproximar a elevação do AG. Se tudo for negativo e o gap persistir → álcoois tóxicos.

Passo 5 · AG elevado

Gap-gap / Delta–Delta (Δ–Δ)

Em uma acidose metabólica pura com AG aumentado, cada ânion que entra "consome" um bicarbonato: o aumento do AG deveria acompanhar a queda do HCO₃⁻. Quando não acompanha, há um segundo distúrbio metabólico escondido.

Passo a passo (AFP · NEJM)
ΔAG = AG − 12 ΔHCO₃⁻ = 24 − HCO₃⁻ medido Gap-gap = ΔAG − ΔHCO₃⁻ ⓘDelta–Delta: compara quanto o AG subiu com quanto o HCO₃⁻ caiu. Referências didáticas: AG 12 e HCO₃⁻ 24 (ambas as fontes).

> 0 (além da margem): o HCO₃⁻ caiu menos do que o AG subiu → algo está repondo bicarbonato → alcalose metabólica associada.

< 0 (além da margem): o HCO₃⁻ caiu mais → perda adicional de HCO₃⁻ ou ganho de Cl⁻ → NAGMA associada.

Limitação: AG e HCO₃⁻ basais do paciente raramente são conhecidos; é uma aproximação (NEJM).

ResultadoInterpretação
ΔAG ≈ ΔHCO₃⁻ (0 ± 5)AGMA isolada
ΔAG > ΔHCO₃⁻ (> +5)Alcalose metabólica associada
ΔAG < ΔHCO₃⁻ (< −5)NAGMA associada
Abordagens diferentes na literatura NEJM: 0 ± 5 mmol/L = simples; > 5 = alcalose metabólica; < −5 = NAGMA. Na cetoacidose a relação é ≈ 1:1; na acidose láctica o HCO₃⁻ cai ≈ 0,6 × ΔAG (menor clearance renal do lactato) → usar 0,6 × ΔAG − ΔHCO₃⁻. Em acidose láctica "muito aguda" (pós-convulsão, exercício extenuante) a relação volta a ≈ 1:1.
AFP: diferença > 6 mEq/L entre ΔAG e ΔHCO₃⁻ sugere distúrbio adicional.
A calculadora usa a margem ± 5 do NEJM e aplica o fator 0,6 quando o lactato é o ânion predominante.
Calculadora 7 · Delta–Delta
ExemploNa 140 · Cl 100 · HCO₃⁻ 10 → AG = 30
ΔAG = 30 − 12 = 18 · ΔHCO₃⁻ = 24 − 10 = 14 · Gap-gap = +4
Conclusão (NEJM, 0 ± 5): dentro da margem → AGMA isolada. Pelo critério AFP (> 6) também não há distúrbio adicional. Compare com o Caso 1 do AFP (ΔAG 22 vs ΔHCO₃⁻ 14 → +8 → alcalose metabólica associada).

Não confunda

Cinco "gaps", cinco perguntas diferentes

FerramentaFórmulaPergunta que responde
Anion gapNa − (Cl + HCO₃)Existem ânions não mensurados em excesso?
AG corrigidoAG + 2,5 × (4 − alb)O AG está mascarado pela albumina baixa?
Delta–Delta / gap-gap(AG − 12) − (24 − HCO₃)Existe outro distúrbio metabólico associado?
Osmolal gapOsm medida − (2Na + gli/18 + BUN/2,8)Existem osmóis não mensurados (álcoois, glicóis)?
Urine anion gapNa₍u₎ + K₍u₎ − Cl₍u₎O rim está aumentando adequadamente a excreção de NH₄⁺?

Passo 5 · AG elevado sem explicação

Osmolal gap

Indicado quando o AG elevado não é explicado por lactato, cetonas ou uremia, em coma, suspeita de ingestão de álcool tóxico ou risco de intoxicação iatrogênica por propilenoglicol (NEJM).

Osmolalidade calculada (AFP · NEJM)2 × Na + glicose/18 + BUN/2,8 ⓘOsmolalidade calculada a partir dos osmóis habituais (Na, glicose, ureia). Glicose e BUN em mg/dL. Se houver etanol, somar etanol (mg/dL)/3,7 (NEJM).

Ureia vs BUN: laboratórios brasileiros reportam ureia; BUN = ureia ÷ 2,14 (relação de massa molar).

Osmolal gapOsmolalidade medida − calculada ⓘOsmolal gap: < 10 mOsm/kg é considerado normal (AFP; NEJM), mas a faixa populacional vai de −10 a +10 → teste pouco sensível para concentrações pequenas, porém tóxicas.

Elevado: osmóis exógenos (MADGAS: manitol, álcoois, diatrizoato, glicerol, acetona, sorbitol).

Também sobe moderadamente em acidose láctica, cetoacidose alcoólica e diabética (NEJM).

Um osmolal gap normal não exclui intoxicação por álcool tóxicoMetanol e etilenoglicol elevam o osmolal gap logo após a ingestão; com o metabolismo (formato, glicolato/oxalato) o gap osmolal cai e o anion gap sobe. Chegando tarde, o osmolal gap pode já estar normal. Etanol concomitante atrasa os sintomas (NEJM; Spiegel).
Calculadoras 8 e 9 · Osmolalidade e gap
AG elevado
↓
Explicado por lactato, cetonas ou uremia?
não
Calcular osmolal gap
≥ 10 → aumentado
Considerar álcool tóxico / osmóis exógenos · contatar toxicologia

Passo 5 · AG normal

Acidose metabólica com anion gap normal (NAGMA)

HCO₃⁻ cai e o Cl⁻ sobe para manter a eletroneutralidade — acidose hiperclorêmica. A pergunta central: o bicarbonato está sendo perdido pelo trato GI ou o rim não está excretando ácido?

HCO₃⁻ baixo + AG normal(após correção pela albumina)
↓
Acidose metabólica hiperclorêmica
↓
Perda GI de HCO₃⁻ ou falha renal de acidificação?
↓
Urine anion gap = Na₍u₎ + K₍u₎ − Cl₍u₎ ⓘUAG: substituto indireto do NH₄⁺ urinário (raramente dosado). NH₄⁺ é excretado como NH₄Cl → muito NH₄⁺ ⇒ muito Cl⁻ urinário ⇒ UAG negativo.

Negativo: rim acidifica bem → causa extrarrenal (diarreia, salina). Positivo: excreção de NH₄⁺ prejudicada → ATR, insuficiência renal, hipoaldosteronismo.

Não confiável com poliúria, pH urinário > 6,5, Na urinário < 20 ou NH₄⁺ excretado com outro ânion (cetoácidos, salicilato) → usar gap osmolal urinário (NEJM).

↓
UAG negativo
Excreção de NH₄⁺ adequadaPerda extrarrenal: diarreia, salina, NPT, derivações urinárias, ATR proximal (acidificação distal intacta)
UAG positivo
Excreção de NH₄⁺ reduzidaATR distal, ATR tipo 4, insuficiência renal
↓
K⁺ sérico (AFP)
↓
K⁺ ↑ATR tipo 4 · deficiência de aldosterona
K⁺ ↓ → pH urinário> 5,3: ATR distal (tipo 1) · variável: ATR proximal (tipo 2)
OrigemCausas (NEJM Tabela 2 · AFP HARDUP)
GastrointestinalDiarreia; fístulas biliares ou pancreáticas; derivações ureterais / fístula ureteroentérica
RenalATR tipo 2 (proximal), tipo 1 (distal — anfotericina, lítio, Sjögren), tipo 4 (hipoaldosteronismo); acidose urêmica precoce; ifosfamida, tenofovir, topiramato, acetazolamida
IatrogênicaGrandes volumes de salina 0,9% ("acidose hiperclorêmica hospitalar"); hiperalimentação (cloridratos de lisina, histidina, arginina); NH₄Cl, colestiramina
OutrasInsuficiência adrenal (HARDUP); tolueno (fase tardia)
Calculadora 10 · Urine anion gap
Nuance (NEJM)Gap osmolal urinário = Osm₍u₎ medida − [2 × (Na₍u₎ + K₍u₎) + ureia₍u₎/2,8 + glicose₍u₎/18]. Valor < 40 mmol/L em NAGMA indica excreção deficiente de NH₄⁺; correlaciona-se melhor com o amônio urinário do que o UAG, exceto na cetoacidose.

Passo 6

Alcalose metabólica

pH > 7,42 com HCO₃⁻ > 26 (NEJM). Gerar alcalose exige ganho de álcali e um rim que não consegue excretar o excesso de HCO₃⁻ — perda gástrica e diuréticos respondem pela maioria dos casos.

HCO₃⁻ elevado + alcalemia
↓
Medir Cl⁻ urinário (amostra isolada)
↓
Cl⁻ urinário ≤ 20 mEq/L
Depleção de cloreto"responsiva a cloreto" — melhora com salina (+ KCl)
↓
Vômitos · aspiração gástrica · diurético remoto · diarreia (AFP) · depleção volêmica · bicarbonato infundidoVômito típico: Cl₍u₎ < 10 (NEJM)
Cl⁻ urinário > 20 mEq/L
Sem depleção de cloretoavaliar pressão arterial e volemia
↓
PA elevadaExcesso mineralocorticoide → renina e aldosterona
PA normal/baixaCl₍u₎ persistentemente alto? Não → diurético ativo · Sim → Bartter / Gitelman
Cl⁻ urinárioPAPrincipais hipóteses
≤ 20Baixa / normalVômitos, sonda nasogástrica, diurético em fase remota, pós-hipercapnia, diarreia clorética
> 20 (persistente)ElevadaRenina ↓ + aldosterona ↑: hiperaldosteronismo primário · Renina ↓ + aldosterona ↓: Liddle, Cushing, tumor produtor de ACTH · Renina ↑ + aldosterona ↑: estenose de artéria renal, HAS maligna, tumor produtor de renina
> 20 (persistente)Normal / baixaBartter (Ca urinário alto), Gitelman (Ca urinário baixo), hipomagnesemia grave, hipercalcemia extrema
FlutuanteVariávelDiurético em uso ativo (Cl₍u₎ alto enquanto o efeito dura, depois cai), reposição volêmica
Abordagens diferentes na literaturaAFP: ponto de corte único de 20 mEq/L. NEJM: < 25 = responsiva a cloreto; > 40 = resistente (zona cinzenta entre 25 e 40); em perda gástrica evidente ou uso de diurético clorurético, o Cl⁻ urinário nem é necessário. Álcali exógeno e hipercalcemia grave (síndrome leite-álcali) são avaliados antes.
Alcalose pós-hipercapnia (AFP)Paciente com DPOC e hipercapnia crônica compensada: correção respiratória rápida (VNI/VM) derruba a PaCO₂ enquanto o HCO₃⁻ cai devagar → alcalose metabólica.
Calculadora 4 · Compensação da alcalose metabólica

Passo 6

Distúrbios respiratórios

Acidose respiratória = hipoventilação (↑ PaCO₂); alcalose respiratória = hiperventilação (↓ PaCO₂). O gradiente A–a separa causas pulmonares de extrapulmonares (NEJM); Spiegel resume a acidose em "não respira" vs "não consegue respirar".

Acidose respiratória aguda
  • Depressão do centro respiratório: opioides, barbitúricos, benzodiazepínicos, encefalite, trauma ("não respira")
  • Obstrução aguda: asma grave, pneumonia (A–a ↑)
  • Fadiga da musculatura respiratória, doença neuromuscular aguda ("não consegue respirar")
  • Hipercapnia permissiva na SDRA (AFP)
Acidose respiratória crônica
  • DPOC (A–a ↑) — causa mais comum (AFP)
  • Doença neuromuscular: miastenia, ELA, Guillain-Barré, distrofias
  • Cifoescoliose, síndrome de hipoventilação
  • HCO₃⁻ alto por adaptação renal; pH pode ser normal (NEJM)
Alcalose respiratória aguda
  • Dor, ansiedade, febre, AVC, meningite, trauma, anemia grave, salicilato (A–a normal)
  • Pneumonia, edema pulmonar, embolia pulmonar, aspiração, IC, sepse (A–a ↑)
  • Hipoxemia; ventilação mecânica excessiva
Alcalose respiratória crônica
  • Gestação, hipertireoidismo, insuficiência hepática (A–a normal)
  • Embolia pulmonar na gestação, hepatopatia com pneumonia aspirativa (A–a ↑)
  • Hipoxemia crônica / altitude
Gradiente alvéolo-arterial (NEJM, ar ambiente, nível do mar)A–a = 150 − PaO₂ − 1,25 × PaCO₂ ⓘGradiente A–a: PAO₂ − PaO₂. Normal ≈ 5–10 mmHg em jovens, 15–20 em idosos; sobe ≈ 2 mmHg por década (estimativa: idade/4 + 4).

Normal com hipoventilação → causa extrapulmonar (drive, neuromuscular). Elevado → doença pulmonar intrínseca, distúrbio V/Q ou ambos.

Só vale em ar ambiente (FiO₂ 0,21); com O₂ suplementar use a forma completa: FiO₂ × (760 − 47) − PaCO₂/0,8 − PaO₂.

Nuance importante (Spiegel et al.)Estudos não demonstraram associação entre pH ou PaCO₂ e necessidade de VNI ou intubação. A fórmula de Winter foi derivada de pacientes estáveis com CAD e nunca foi comparada ao julgamento clínico do trabalho respiratório. Decisão de suporte ventilatório = trabalho respiratório + estado mental + quadro clínico + curso previsto — não uma fórmula.
Calculadora 5 · Acidose respiratória
Calculadora 6 · Alcalose respiratória

Módulo complementar · Spiegel et al., JEM 2025

Uma outra maneira de enxergar o problema: Na, Cl e o Gap

Esta seção representa uma abordagem quantitativa simplificada, complementar — não substitui a abordagem fisiológica usada nas seções anteriores. A vantagem é didática: torna visível o papel do cloro, que a abordagem clássica trata só indiretamente.

EletroneutralidadePara cada cátion há um ânion. Na simplificação de Spiegel, o Na⁺ é o único cátion considerado e se equilibra com Cl⁻ + HCO₃⁻ + Gap. H⁺ e HCO₃⁻ são variáveis dependentes: quem manda são CO₂, íons fortes e ácidos fracos. Consequência prática: o HCO₃⁻ cai em resposta a um Cl⁻ que sobe ou a um gap que cresce.
SID simplificado (Spiegel)SID = Na⁺ − Cl⁻ ⓘStrong Ion Difference simplificado: quantifica o efeito do cloro.

< 36: relativamente mais Cl⁻ → efeito acidificante → acidose hiperclorêmica ("SID acidosis"; toda NAGMA é uma SID acidosis).

> 40: relativamente menos Cl⁻ → efeito alcalinizante → alcalose hipoclorêmica.

Limitação: ignora K, Ca, Mg, lactato e ácidos fracos; perde granularidade em troca de praticidade.

Abordagens diferentes na literaturaNEJM considera o método físico-químico (Stewart) complexo demais para a beira do leito e sem vantagem diagnóstica comprovada; defende a abordagem fisiológica como a mais simples e rigorosa. Spiegel responde com uma versão de duas subtrações (SID e AG) voltada à emergência, mas reconhece que ela sacrifica granularidade. Use-a para entender o cloro, não para substituir o algoritmo.
Gamblegram interativo desenhado do zero

O HCO₃⁻ é calculado como Na − Cl − Gap: mova o Cl⁻ ou o Gap e veja o bicarbonato responder — é exatamente a lógica da variável dependente.

Calculadora 11 · SID simplificado + leitura do AG (Spiegel)
Sequência de Spiegel (4 perguntas)1. pH? (acidemia/alcalemia — importa pouco por si) · 2. PCO₂? (< 35 alcalose · > 45 acidose respiratória) · 3. SID? (papel do cloro) · 4. AG? (ânions não mensurados → qual ânion? lactato, cetonas, BUN, salicilato → se tudo negativo e o gap persiste, álcoois tóxicos).

O que move o SID na prática

SituaçãoMecanismoEfeitoEquivalente na abordagem fisiológica
DiarreiaPerda de NaHCO₃ nas fezes → Na cai em relação ao ClSID ↓ · acidose hiperclorêmicaNAGMA com UAG negativo
Salina 0,9%Solução com SID zero (Na = Cl) → dilui o SID plasmático. Ringer lactato e Plasma-Lyte (SID 25 e 42 no artigo) têm efeito mínimo ou alcalinizanteSID ↓ · acidose hiperclorêmicaNAGMA iatrogênica ("acidose hiperclorêmica hospitalar")
Vômitos / aspiração gástricaPerda de HCl → Cl cai em relação ao NaSID ↑ · alcalose hipoclorêmicaAlcalose metabólica por depleção de cloreto (Cl⁻ urinário baixo)
Bicarbonato de sódioEquivale a dar sódio "livre" — Na sobe sem aumento equivalente de ClSID ↑ · alcaloseAlcalose metabólica por álcali exógeno
Água livreExcesso dilui o SID (efeito acidificante); perda concentra (alcalose de contração)SID ↓ ou ↑Acidose dilucional / alcalose de contração
Albumina baixaPerda de ácido fraco → o gap encolhe (AG < 8)"AG alkalosis"Motivo pelo qual o AG precisa ser corrigido pela albumina

Ferramenta central

Calculadora completa de gasometria

Preencha o que tiver. Nada é presumido: um campo ausente gera a frase "não calculado" em vez de um valor inventado. O laudo mostra fórmula → substituição → resultado → interpretação em cada etapa.

Exemplos:
Gasometria obrigatório
Eletrólitos séricos Na e Cl para o AG

Cards independentes

Mini-calculadoras

Onze calculadoras espalhadas pela página, cada uma na seção do conceito. As que faltavam aparecer estão aqui; as demais têm atalho.

Calculadora 3 · Winter
Extra · Gradiente A–a (ar ambiente)
Extra · Henderson–Hasselbalch (consistência)

Consulta rápida

"O que pensar quando eu vejo…"

AchadoPense primeiroConfirme com
pH baixo + PaCO₂ altoAcidose respiratóriaHCO₃⁻: agudo vs crônico
pH baixo + HCO₃⁻ baixoAcidose metabólicaWinter → AG
pH alto + PaCO₂ baixoAlcalose respiratóriaHCO₃⁻: agudo vs crônico
pH alto + HCO₃⁻ altoAlcalose metabólicaCl⁻ urinário
pH normal + PaCO₂ e HCO₃⁻ ambos alteradosDistúrbio misto (ou crônico totalmente compensado)Fórmulas de compensação nos dois sentidos + AG
HCO₃⁻ baixo + Cl⁻ altoAcidose hiperclorêmica (NAGMA / SID baixo)UAG; história de diarreia ou salina
AG altoLactato, cetonas, uremia, toxinasLactato, BHB, função renal, osmolalidade
AG alto + osmolal gap altoÁlcool tóxico / osmóis exógenosNíveis; toxicologia
AG "normal" + albumina baixaAG corrigido pode estar elevadoCorrigir: + 2,5 por g/dL abaixo de 4
AG alto + lactato normal + etilismoCetoacidose alcoólica (BHB predominante)BHB sérico (nitroprussiato pode ser negativo)
ΔAG > ΔHCO₃⁻Alcalose metabólica associadaVômitos? diurético? bicarbonato?
ΔAG < ΔHCO₃⁻NAGMA associadaSalina? diarreia? ATR?
UAG negativoPerda GI de HCO₃⁻ mais provávelDiarreia, salina
UAG positivoAcidificação renal inadequadaK⁺ sérico, pH urinário → tipo de ATR
Alcalose + Cl⁻ urinário baixoDepleção de cloretoResponde à salina + KCl
Alcalose + Cl⁻ urinário alto + HASExcesso mineralocorticoideRenina, aldosterona
Alcalose + Cl⁻ urinário alto + PA normalDiurético em uso, Bartter, Gitelman, hipomagnesemiaCa urinário, história
PaCO₂ muito alto + HCO₃⁻ discretamente elevadoAcidose respiratória aguda≈ +1 mEq/L por 10 mmHg
PaCO₂ alto + HCO₃⁻ bastante elevadoAcidose respiratória crônica≈ +3,5–5 mEq/L por 10 mmHg
PaCO₂ baixo em paciente com acidose metabólica além do WinterAlcalose respiratória associada (sepse, salicilato, hepatopatia, gestação)Contexto clínico
AG baixo ou negativoHipoalbuminemia, lítio, gamopatia IgG, brometo/iodeto, hipercalcemiaAlbumina, eletroforese, história

Box

pH normal não significa gasometria normal

Paciente séptico: pH 7,39 · PaCO₂ 24 · HCO₃⁻ 14 · Na 140 · Cl 103. Olhando só o pH, "normal". Mas HCO₃⁻ 14 é uma acidose metabólica (AG = 23). Winter: 1,5 × 14 + 8 = 29 ± 2 → PaCO₂ esperada 27–31. A PaCO₂ de 24 está abaixo → alcalose respiratória associada (a hiperventilação da sepse). Os dois processos se anulam no pH.

Por que olhar só o pH leva ao erroO pH é a soma algébrica de todos os processos. Um distúrbio misto com efeitos opostos zera a soma sem zerar as parcelas. Confira sempre PaCO₂, HCO₃⁻ e AG — o NEJM lembra que o AG pode ser a única pista.
pH 7,39 — “normal” 7,20 7,40 7,60 Acidose metabólica · HCO₃⁻ 14 Alcalose respiratória · PaCO₂ 24 As duas forças se anulam — o pH não revela nenhuma delas.

Erros frequentes

Pegadinhas

1
pH normal não exclui distúrbio misto

Dois processos opostos se anulam. Cheque PaCO₂, HCO₃⁻ e AG antes de dizer "normal" (AFP; NEJM).

2
A compensação não "ultrapassa" o distúrbio primário

Se o pH cruzou para o lado oposto, há um segundo distúrbio primário. Exceção clássica: alcalose respiratória crônica pode normalizar o pH; dados recentes admitem pH normal ou até > 7,40 em acidose respiratória crônica (NEJM).

3
AG normal não exclui lactato elevado

Metade dos pacientes com lactato 3–5 tem AG na faixa normal; sensibilidade < 80% (NEJM; Spiegel). Dose o lactato.

4
Corrija o AG pela albumina

Sem correção, > 50% dos aumentos relevantes passam despercebidos. +2,5 por g/dL abaixo de 4 (NEJM).

5
Osmolal gap normal não exclui álcool tóxico

Cai com o tempo enquanto o AG sobe. Sensibilidade baixa; também se eleva em cetoacidose e acidose láctica (NEJM; Spiegel).

6
Salina 0,9% causa acidose hiperclorêmica

Solução com SID zero. Grandes volumes → NAGMA "hospitalar" (AFP; NEJM; Spiegel). Balanceadas têm efeito mínimo.

7
DPOC tem HCO₃⁻ alto por adaptação renal

Não é alcalose metabólica primária — é compensação crônica (+3,5–5 por 10 mmHg). Compare com o basal do paciente.

8
DPOC + vômitos (ou diurético, ou VNI agressiva) = alcalose metabólica adicional

HCO₃⁻ acima do previsto crônico (> 5/10) denuncia o segundo distúrbio; correção rápida da PaCO₂ gera alcalose pós-hipercapnia (AFP).

9
Diarreia tende a gerar NAGMA

Perda de NaHCO₃ com Cl⁻ relativo alto; UAG negativo (rim acidifica bem). Na abordagem quantitativa, SID baixo.

10
Vômitos geram alcalose metabólica hipoclorêmica

Perda de HCl → Cl⁻ urinário < 10–20; responde a salina + KCl. Em CAD com vômitos, o Δ–Δ revela a alcalose oculta.

11
Winter não decide intubação

Derivada de CAD estável, não validada para isso e nunca comparada ao julgamento clínico. Trabalho respiratório e estado mental decidem (Spiegel).

12
Ureia não "preenche" o gap proporcionalmente

É só marcador dos ânions da uremia; AG por insuficiência renal costuma ser discreto — gaps grandes pedem outra explicação (Spiegel).

Treinamento

Casos clínicos resolvidos

Seis casos didáticos com cálculo passo a passo. Os valores são internamente consistentes pela equação de Henderson–Hasselbalch. Clique em "Carregar na calculadora" para ver o laudo automático.

1ª parte

10 questões avançadas

Casos clínicos no padrão de concurso (estilo FCC). Sem gabarito visível até você responder. Cada questão exige aplicar o algoritmo — o enunciado não diz qual cálculo fazer.

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Fontes

Referências

1. Morikawa MJ, Ganesh PR. Acid-Base Interpretation: A Practical Approach. American Family Physician. 2025;111(2):148-155. Consultar publicação original ↗
2. Berend K, de Vries APJ, Gans ROB. Physiological Approach to Assessment of Acid–Base Disturbances. N Engl J Med. 2014;371(15):1434-1445. DOI / publicação original ↗
3. Spiegel R, Gordon D, Kappler S, Hockstein M. Quantitative Acid-Base: A Simplified Approach for the Emergency Physician. The Journal of Emergency Medicine. 2025;77:50-60. DOI / publicação original ↗

Convenções desta ferramenta declaradas como tais (não retiradas dos artigos): pK 6,1 na equação de Henderson–Hasselbalch; conversão ureia → BUN (÷ 2,14); tolerância de ± 2 mEq/L (faixa de referência do HCO₃⁻, 24 ± 2 no NEJM) ao classificar distúrbios respiratórios como agudos ou crônicos; o fator 0,6 exige seleção explícita de acidose láctica predominante; lactato elevado isoladamente não define a etiologia do gap.